A retomada da rotina corporativa em 2026 expõe uma nova lógica de carreira no Brasil

Mercado de trabalho Negócios

Todo início de ano funciona como um grande espelho para o mercado de trabalho. O retorno do período de recesso, férias e desaceleração típica do fim do ano mostra com mais nitidez, além de agendas cheias e caixas de e-mail lotadas, como profissionais e empresas estão se reposicionando diante de suas escolhas de carreira. 

À frente de uma das maiores empresas do setor na América Latina, posso dizer que analisamos milhões de jornadas profissionais e movimentos de empregabilidade ao longo do ano inteiro. Só no primeiro trimestre, o que observamos nos dados é um aumento consistente no volume de buscas por novas oportunidades e na atualização de currículos, especialmente nas primeiras semanas após o retorno do recesso. Mas é justamente nesse momento de retomada que alguns padrões ficam mais claros. A volta ao ritmo corporativo costuma acionar reflexões profundas e se fazer questionar: faz sentido continuar onde estou? Estou aprendendo o suficiente? Quais oportunidades realmente combinam com o que quero construir a partir daqui?

É fato que esse período marca um pico de movimentação no mercado. Historicamente, o início do ano concentra um dos maiores volumes de candidaturas e interações entre profissionais e empresas. Nos meses finais, o foco de muitos candidatos tende a se deslocar para o fechamento de ciclos, compromissos pessoais e o ritmo das festas de fim de ano, o que naturalmente reduz a intensidade das buscas, sem interromper o interesse por boas oportunidades.

A busca por novas vagas cresce, assim como o interesse por transições de carreira e requalificação. Não se trata de impulsividade, mas de consciência. O recesso funciona como uma pausa estratégica, e o retorno, como um ponto de decisão. As pessoas voltam menos no “piloto automático” e mais dispostas a redesenhar seus próximos passos.

Outro sinal claro dessa nova lógica é a forma como os profissionais encaram crescimento. A ideia de progressão apenas vertical perdeu espaço para trajetórias mais flexíveis, que combinam aprendizado, mobilidade lateral e aquisição de novas habilidades. Ao observar milhões de currículos e candidaturas, percebemos que o desenvolvimento contínuo passou a ser um critério tão relevante quanto o cargo em si.

Em contrapartida, para as empresas, o início do ano também é revelador. A retomada da rotina escancara desafios de atração e retenção que muitas vezes ficaram latentes nos meses finais do ano. Organizações que não oferecem clareza de propósito, perspectiva de evolução e uma experiência profissional coerente sentem esse impacto mais rapidamente, seja pelo aumento da rotatividade de profissionais, seja pela dificuldade em preencher vagas estratégicas.

Há ainda um movimento importante de amadurecimento na relação com o trabalho. Profissionais estão mais criteriosos, fazendo escolhas menos reativas e mais alinhadas aos seus objetivos de médio e longo prazo. Isso muda a dinâmica do mercado, onde processos seletivos se tornam mais exigentes dos dois lados, e o diálogo entre empresas e talentos passa a exigir mais transparência.

Em suma, vejo que a retomada da rotina corporativa funciona como um termômetro do mercado e revela uma nova lógica de carreira em curso no Brasil, em que podemos caracterizar como mais ativa, mais estratégica e centrada em decisões conscientes. 

Cabe, portanto, entender que esse movimento é essencial para quem lidera pessoas, ou até mesmo para quem define estratégias de negócio ou constrói a própria trajetória profissional. Por que, a cada novo ano, fica mais evidente que carreira não é sobre repetir ciclos, mas sobre saber quando – e como – iniciar um novo. 

*Ana Paula Prado é CEO da Redarbor Brasil, detentora da Catho