Por Antonio Vinhas
Estratégia, tecnologia e transformação digital deixaram de ser temas paralelos dentro das empresas para se tornarem uma única agenda. Ainda assim, muitas organizações continuam tratando esses pilares de forma isolada, como se tecnologia fosse apenas um meio de suporte operacional. Essa desconexão é, hoje, um dos principais fatores que explicam por que tantos investimentos em transformação digital não geram o retorno esperado. Segundo a McKinsey, cerca de 70% das iniciativas de transformação falham em atingir seus objetivos, não por falta de tecnologia, mas por falta de alinhamento estratégico.
O ponto de partida não é a tecnologia; é a clareza sobre o negócio. Empresas que avançam de forma consistente são aquelas que utilizam a tecnologia como instrumento de execução da estratégia, e não como um fim em si. Isso significa priorizar decisões que impactam diretamente crescimento, eficiência e posicionamento competitivo. Em um cenário em que o investimento global em transformação digital deve ultrapassar US$ 3 trilhões até 2025, segundo a IDC, a diferença não está em quanto se investe, mas em como e por que se investe.
Ao longo dos últimos anos, vimos uma mudança importante no papel da tecnologia dentro das organizações. O CIO deixou de ser apenas um gestor de infraestrutura para assumir um papel cada vez mais estratégico, muitas vezes atuando como elo entre inovação e resultado. Essa evolução, no entanto, exige uma mudança estrutural na forma como as empresas tomam decisão. Tecnologia precisa estar presente na mesa onde se discutem prioridades de negócio, alocação de capital e direcionamento de longo prazo.
Transformação digital, nesse contexto, não se trata de digitalizar processos existentes, mas de repensar modelos de negócio. Isso envolve desde a revisão de arquitetura tecnológica até a criação de novos produtos, canais e formas de relacionamento com o cliente. Empresas que tratam a transformação apenas como automação tendem a capturar ganhos marginais. Já aquelas que enxergam a tecnologia como vetor de crescimento conseguem abrir novas fontes de receita e ganhar escala com mais eficiência.
Outro ponto crítico é a execução. Estratégias bem desenhadas perdem valor quando não são implementadas com consistência. A complexidade dos ambientes atuais, especialmente em setores regulados como o financeiro, exige uma combinação de visão estratégica com profundidade técnica. É nesse espaço que muitas empresas encontram dificuldade, seja pela falta de priorização, seja pela ausência de um plano claro que conecte o estado atual ao futuro desejado. A abordagem precisa ser estruturada, mas ao mesmo tempo flexível para se adaptar à velocidade do mercado.
No fim, a discussão sobre estratégia, tecnologia e transformação digital é, essencialmente, uma discussão sobre geração de valor. Empresas que conseguem integrar esses três elementos de forma coerente não apenas operam melhor, mas tomam decisões mais rápidas, reduzem riscos e se posicionam de maneira mais competitiva. A tecnologia, quando bem aplicada, deixa de ser custo e passa a ser um dos principais ativos para sustentar crescimento e diferenciação no longo prazo.
* Antonio Vinhas é managing partner da águilahub. Ex CIO do Deutsche Bank e do UBS e ex-head de Operações da Exadel.