O que ainda existe de criança no adulto que você se tornou?
O dia 12 de outubro reúne três datas importantes para mim: o Dia das Crianças, o aniversário da minha mãe e o dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Três celebrações que me fazem refletir sobre a natureza humana, os valores que moldam nossas escolhas e a fragilidade da vida. Observar crianças, compreender o significado das crenças e acompanhar a passagem do tempo nos ensina muito sobre comportamento, relações e sobre a vida que estamos construindo.
O dia 12 de outubro sempre teve um significado particular na minha vida. Além de ser Dia das Crianças e de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, é aniversário da minha mãe. E, conforme os anos passam, encontro nessas três celebrações motivos diferentes para refletir sobre o comportamento humano e sobre a vida que estamos construindo.
Desde que me tornei mãe, observar crianças passou a ser uma das experiências mais interessantes que tenho para compreender a natureza humana. Existe algo fascinante em acompanhar um ser humano que ainda está aprendendo a lidar com suas emoções, seus desejos, suas frustrações e com a existência de outras pessoas que também têm vontades próprias.
Uma criança pequena não precisa aprender a sentir ciúme, medo, raiva ou desejo de reconhecimento. Essas emoções surgem muito antes de ela conseguir compreender o que significam. Basta observar duas crianças disputando o mesmo brinquedo, a reação diante de um limite ou a felicidade quase desproporcional ao receber um elogio. *Existe ali uma expressão muito evidente de mecanismos que continuam presentes em nós durante toda a vida.*
O desenvolvimento do cérebro, especialmente das regiões envolvidas no controle de impulsos, na avaliação de consequências e na regulação emocional, acontece ao longo de muitos anos. É parte do processo que permite transformar reações imediatas em comportamentos mais deliberados. *Mas amadurecer não significa deixar de sentir os impulsos que experimentávamos na infância. Significa desenvolver recursos para lidar com eles.*
E é curioso observar como esses mesmos mecanismos aparecem nas relações profissionais, embora de maneiras muito mais sofisticadas.
O executivo que interpreta uma discordância como ameaça à sua autoridade, o profissional que se compara constantemente aos colegas ou o líder que precisa ser reconhecido em todas as decisões podem estar reagindo a necessidades humanas bastante antigas. *O ambiente muda, o vocabulário se torna mais elaborado, aprendemos a justificar nossas atitudes com argumentos racionais, mas isso não garante que a origem das nossas decisões seja igualmente racional.*
A psicologia e a neurociência vêm demonstrando como nossas escolhas são influenciadas por emoções, experiências anteriores, expectativas de recompensa e pela necessidade de pertencimento. Muitas vezes, construímos explicações coerentes para decisões que começaram a ser formadas antes mesmo de termos consciência dos fatores que nos influenciaram.
Ao longo dos meus anos trabalhando com pessoas, seja recrutando profissionais, acompanhando lideranças ou observando ambientes de trabalho, percebo como essa compreensão ajuda a interpretar comportamentos que, à primeira vista, parecem contraditórios.
Pessoas extremamente inteligentes podem tomar decisões ruins quando se sentem ameaçadas. Profissionais experientes podem reagir de maneira impulsiva diante de uma crítica. E indivíduos que demonstram enorme capacidade técnica nem sempre conseguem administrar as próprias emoções nas relações com os outros.
Observar minhas filhas me faz reconhecer com mais clareza comportamentos que também encontro nos adultos, inclusive em mim. *E quanto mais entendemos os mecanismos que influenciam nossas reações, mais recursos temos para fazer escolhas conscientes.*
A segunda celebração do dia 12 de outubro também me provoca uma reflexão importante, embora por um caminho completamente diferente.
Eu não sou católica, mas reconheço a importância de Nossa Senhora Aparecida para milhões de brasileiros. Símbolos religiosos e culturais fazem parte da história de um povo, atravessam gerações e carregam significados que vão muito além da experiência individual de cada pessoa.
A maneira como nos relacionamos com esses símbolos revela algo sobre nossa capacidade de compreender o mundo para além das nossas próprias referências. *Ninguém precisa compartilhar determinada crença para reconhecer seu valor histórico, cultural e afetivo para quem acredita nela.*
Isso também aparece nas relações humanas e profissionais. Cada pessoa chega a uma conversa trazendo uma história que não conhecemos por inteiro, valores que aprendeu em casa, experiências que influenciaram suas convicções e referências que ajudam a explicar a forma como interpreta o mundo.
Quando ignoramos essas diferenças, corremos o risco de avaliar comportamentos apenas com base nas nossas próprias experiências. E essa é uma limitação importante para quem precisa conviver, negociar, contratar, desenvolver pessoas ou liderar.
*Reconhecer o significado que algo tem para o outro amplia nossa compreensão sobre ele.* E compreender pessoas é uma habilidade que considero indispensável em qualquer ambiente no qual precisamos construir relações e tomar decisões.
Por fim, existe o significado mais pessoal dessa data: o aniversário da minha mãe.
Quando somos crianças, a passagem do tempo tem uma dimensão muito diferente. Um ano parece uma eternidade, os adultos parecem saber tudo e nossos pais ocupam um lugar de permanência quase absoluta. Envelhecer muda gradualmente essa percepção.
Os aniversários passam a marcar também a consciência de que nossos pais envelhecem, nossos filhos crescem e nós mesmos avançamos em uma história cujo tempo de duração desconhecemos.
Nos últimos anos, acompanhar minha mãe tem me colocado diante de uma dimensão ainda mais delicada dessa passagem do tempo. Existem mudanças que acontecem de maneira tão gradual que quase não percebemos quando começaram, até que um dia nos damos conta de que coisas antes simples já exigem outro cuidado, outro ritmo, outra forma de estar presente.
É uma experiência que transforma a maneira como enxergamos a vida. Aprendemos que nem tudo está sob nosso controle e que, por mais que desejemos preservar pessoas, momentos e capacidades, existem processos que seguem seu próprio curso. *Às vezes, o tempo muda aquilo que conhecemos de alguém, mas não diminui o lugar que essa pessoa ocupa na nossa história.*
A fragilidade da vida é uma daquelas verdades que todos conhecemos, mas que nem sempre incorporamos às decisões que tomamos.
Isso me faz pensar em quantas escolhas são orientadas por um futuro que tratamos como garantido. Trabalhamos para conquistar uma posição melhor, alcançar determinado padrão de vida, acumular patrimônio ou chegar a um momento em que finalmente teremos mais tempo para aproveitar aquilo que construímos.
Existe uma lógica compreensível nesse comportamento. Nossa capacidade de planejar o futuro é uma das características que permitem construir projetos de longo prazo, fazer investimentos e abrir mão de recompensas imediatas em busca de resultados maiores. Mas também podemos nos acostumar tanto a viver em função do que ainda queremos alcançar que deixamos de perceber o valor daquilo que já faz parte da nossa vida.
Trabalhei por mais de vinte anos no mercado financeiro e conheço bem a dinâmica de ambientes nos quais metas, resultados e conquistas ocupam uma parte significativa da nossa atenção. Continuo acreditando na importância da ambição, do trabalho e do desenvolvimento profissional. São forças que podem ampliar nossa autonomia e criar possibilidades extraordinárias.
*Mas a experiência também me mostrou que uma carreira bem construída precisa fazer sentido dentro da vida de quem a constrói.*
O aniversário da minha mãe, especialmente agora que também sou mãe, me faz pensar sobre o que realmente quero viver, sobre as memórias que desejo construir com minhas filhas e sobre as escolhas que faço todos os dias com o tempo que tenho disponível.
É interessante perceber como essas três celebrações acabam se encontrando.
As crianças revelam muito sobre os impulsos e as emoções que continuam presentes em nós. As tradições e os símbolos nos ajudam a compreender o peso da história, da cultura e das crenças na formação das pessoas. E o envelhecimento dos nossos pais nos coloca diante de uma dimensão da existência que nenhum planejamento consegue controlar completamente.
Em todos esses casos, existe um convite à observação. Daquilo que sentimos, daquilo que o outro valoriza e da maneira como estamos usando o tempo.
Tenho defendido cada vez mais que construir uma carreira merece atenção, dedicação e boas escolhas. Mas quero que essa carreira seja parte de uma vida que valha a pena ser vivida.
Neste 12 de outubro, quero celebrar a oportunidade de continuar aprendendo com minhas filhas, de reconhecer o valor daquilo que é importante para tantas pessoas e, especialmente, de ter minha mãe presente na minha história.
*Porque o tempo não espera que a gente termine nossos planos para continuar passando. E a vida que queremos viver precisa encontrar espaço na vida que estamos vivendo.*
E você, o que a passagem do tempo tem mudado na sua forma de enxergar a vida e o trabalho?
Vai cuidar da sua carreira.
Envie seu comentário para: mariana.buratto@blivy.com.br ou contato@blivy.com.br
Autora: Mariana Buratto é economista e atua no mercado corporativo há mais de 20 anos, os últimos 13 como headhunter. É fundadora da Blivy, consultoria especializada em decisões de talento e recrutamento para empresas e profissionais. Aplica neurociência comportamental à tomada de decisão, unindo evidência científica e prática de mercado para embasar resultados de negócio.
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