Vulnerabilidade no trabalho: O que você conta para o seu gestor conta contra você?
Seu gestor pode ouvir sua crise pessoal com empatia genuína e, ao mesmo tempo, processar aquilo como risco. Você sabia que as duas coisas acontecem ao mesmo tempo?
Semana passada uma mentorada me perguntou se podia ser ela mesma no trabalho, ou se isso seria ingenuidade demais. A resposta não é um simples sim ou não, mas um bom: “depende”.
Existe uma confusão que vejo em quase toda empresa que passo: trocar abertura por exposição desmedida. São coisas diferentes, e a diferença não é sutil.
Abertura é compartilhar contexto que ajuda o outro a te entender melhor. Exposição desmedida é entregar informação que não muda a forma como seu trabalho é lido, só muda a forma como você é julgada.
Sou muito a favor do discurso de “traga seu eu inteiro para o trabalho”, porque não acredito que sejamos capazes de fracionar nossa existência. Somos seres inteiros. Mas somos, também, seres com altíssima capacidade de adaptação, e adaptação não é fragmentação.
Ninguém estranha que a gente se vista diferente para um casamento do que para uma segunda-feira qualquer. Não é hipocrisia, é leitura de ambiente. No trabalho funciona igual: você continua inteira, só ajusta a forma como se apresenta ao contexto. Seu gestor pode ser a pessoa mais gentil do mundo, mas ele está ali para exercer uma função, e é ele quem decide seu aumento, sua promoção, sua permanência. Toda informação pessoal que você entrega dentro de uma relação de avaliação vira, quer você queira ou não, parte do material que compõe essa avaliação.
Tem neurociência que explica por que isso pesa mais do que parece, e o efeito não é só em quem se abre, é em quem escuta. O modelo SCARF, do neurocientista David Rock (2008), mostra que o cérebro processa ameaças sociais (perda de status, perda de previsibilidade, perda de controle sobre a narrativa) pelos mesmos circuitos que processam ameaça física. Na prática: seu gestor pode ser genuinamente empático com seu dilema no plano emocional e, ao mesmo tempo, processar aquela mesma informação no plano racional como um risco para a entrega e para o planejamento do time. As duas coisas acontecem ao mesmo tempo, e a segunda nem sempre aparece na cara.
Isso vale também para reclamar de colega para o chefe. Existe um viés estudado em psicologia social chamado transferência espontânea de traço: quando você descreve alguém com um adjetivo negativo, quem ouve tende a associar esse mesmo traço a você, de forma automática e inconsciente. Você acha que expôs o problema do outro. Na cabeça de quem ouviu, a observação recai sobre você. O mesmo, claro, acontece com características positivas. É a observação que conta, não quem ela descreve.
Penso em duas mentoradas que ilustram os dois lados dessa moeda. Uma dividiu com a gestora uma crise pessoal difícil buscando compreensão, e viu aquilo virar argumento contra ela num ciclo de promoção meses depois. Outra recebeu um diagnóstico de saúde que exigiria afastamento e comunicou ao time com clareza: o que precisava, por quanto tempo, o que ficaria sob controle. Foi acolhida, sem drama e sem prejuízo. A diferença entre as duas não foi coragem, foi dose: a segunda comunicou o que o time precisava saber para seguir funcionando, a primeira estava, sem perceber, pedindo outra coisa.
Nas relações pessoais fazemos exatamente a mesma leitura, só que de forma tão automática que nem percebemos. Não contamos aos nossos filhos tudo que nos angustia. Não dividimos com o cônjuge cada dilema no mesmo grau de detalhe. Fazemos, o tempo todo, uma leitura de quanto aquela pessoa tem capacidade de acolher aquilo sem nos prejudicar, e dosamos a partir disso.
O que precisa ficar claro é: o dilema é seu. E resolver um dilema seu não é sobre encontrar quem te escute, mas encontrar a ferramenta certa. Às vezes é um colega. Às vezes é terapia. Às vezes é família, é comunidade espiritual, é uma mentoria.
Antes de compartilhar algo pessoal no ambiente corporativo, eu uso uma pergunta simples: essa informação serve para me tornar mais compreendida como profissional, ou eu estou, na verdade, buscando acolhimento emocional? Se é a primeira, tem lugar ali. Se é a segunda, o lugar certo não é a mesa do seu chefe.
Ser inteira não significa se abrir com todo mundo, do mesmo jeito, o tempo todo. Significa saber, com clareza, o que cada contexto pode e o que não pode carregar sobre você.
Essa leitura vale para o profissional e para o pessoal. Só somos inteiros quando assumimos quem somos e as nossas responsabilidades.
E você, já parou para notar uma vez em que fez essa dosagem sem perceber, ou errou a mão para um lado ou para o outro?
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Autora: Mariana Buratto é economista e atua no mercado corporativo há mais de 20 anos, os últimos 13 como headhunter. É fundadora da Blivy, consultoria especializada em decisões de talento e recrutamento para empresas e profissionais. Aplica neurociência comportamental à tomada de decisão, unindo evidência científica e prática de mercado para embasar resultados de negócio.
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