Você já conquistou a independência de pensar por si mesmo?

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Você já conquistou a independência de pensar por si mesmo?

Em 7 de setembro comemoramos a Independência do Brasil. Esse marco é um dos mais relevantes para o mundo que conhecemos. E quando olhamos para os indivíduos, é a mesma coisa. Apesar de sermos seres sociais, precisamos privilegiar nossos próprios horizontes. 

E a provocação que quero fazer hoje vem da independência que podemos alcançar, proporcionada pela nossa capacidade de discernimento. 

Vivemos num mundo com excesso de informação. Notificação, opinião, notícia, narrativa de mercado, discurso de liderança, tudo isso o tempo todo, nublando a mente. E é exatamente por isso que precisamos, cada vez mais, nos recolher: parar, e perguntar para nós mesmos o que, de fato, faz sentido. Não o que faz sentido para os outros. Não o que a maioria repete. O que faz sentido para mim. 

No mundo corporativo, o que a gente vê, na prática, são dois tipos de gente: quem manipula e quem se deixa manipular. E a diferença entre os dois não é caráter, é discernimento. É a capacidade de perceber o que está de fato acontecendo, além do que está sendo dito. 

Por exemplo, tivemos vários escândalos no nosso país, e fico me perguntando sobre quem estava por perto, vivendo o dia a dia, antes de qualquer manchete, antes de qualquer investigação. Será que havia como perceber que algo não fazia sentido? Você perceberia? 

Discernir aqui vai além da moral, da lei, da ética: é entender se nós mesmos achamos aquilo razoável. 

Daniel Kahneman, prêmio Nobel, documentou que a mente opera em dois sistemas. O Sistema 1 é rápido, automático, movido a atalho, é o que a gente usa o tempo todo, principalmente quando está sobrecarregado de informação. O Sistema 2 é lento, exige silêncio, exige parar. Discernir de verdade é trabalho de Sistema 2. E quanto mais informação, mais estímulo, mais gente falando ao mesmo tempo, menos espaço a gente dá para o Sistema 2 funcionar, porque simplesmente deixamos de exercitá-lo. 

Robert Cialdini catalogou os gatilhos que fazem alguém aceitar algo sem examinar: autoridade, prova social, escassez, reciprocidade, compromisso. Nenhum desses gatilhos convence pelo conteúdo. Convencem porque tiram a pessoa do próprio eixo, fazem ela confiar mais no cargo de quem fala, ou no que todo mundo está fazendo, do que na própria percepção.

É assim que gente boa e competente se deixa levar sem perceber: simplesmente deixa de confiar no que vê e sente, e passa a operar no piloto automático. 

Kant escreveu, num ensaio de 1784 que definiu o próprio conceito de Iluminismo, que a maior parte das pessoas vive numa espécie de menoridade auto imposta, por preguiça e medo de pensar sem tutela. O lema dele era simples: sapere aude, ouse saber, tenha coragem de usar o próprio juízo. Escrito há mais de 240 anos, antes de qualquer CDB, qualquer chefe, qualquer rede social. 

O objetivo aqui é provocar: treinar a capacidade de pensar com a própria cabeça para vivermos de fato em paz com as próprias escolhas, no trabalho, no dinheiro, na vida. 

Dom Pedro gritou “independência ou morte” às margens do Ipiranga. A gente repete essa frase todo 7 de setembro como figura de linguagem, mas talvez ela não seja tão figurada assim. Será que a gente não morre um pouco, por dentro, toda vez que abre mão de pensar com a própria cabeça e deixa outra pessoa decidir, por nós, o que faz sentido? 

É bom comemorar uma independência que a gente tem, de direito, há 204 anos. A pergunta que fica: e a sua, a de pensar com a própria cabeça, essa você já conquistou? Ou você vai morrendo um pouco, todos os dias em que abre mão dela? 

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Autora: Mariana Buratto é economista e atua no mercado corporativo há mais de 20 anos, os últimos 13 como headhunter. É fundadora da Blivy, consultoria especializada em decisões de talento e recrutamento para empresas e profissionais. Aplica neurociência comportamental à tomada de decisão, unindo evidência científica e prática de mercado para embasar resultados de negócio.

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