O preço invisível do sucesso: você está disposto a pagar?

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O preço invisível do sucesso: você está disposto a pagar?

O sucesso profissional sempre foi medido pela régua da hierarquia. Mas será que subir cargos é, de fato, o caminho para uma vida bem-sucedida?

Você tem fome de quê?

Na hierarquia profissional fomos ensinados, de forma velada, que quanto maior o seu cargo, mais bem-sucedida seria a sua vida e a sua carreira. De certa forma essa lógica faz sentido, principalmente quando olhamos para remuneração. Poucas áreas conseguem pagar tão bem alguém que não seja o líder da estrutura.

E dinheiro importa, então essa lógica não está errada. No mundo em que vivemos, você precisa pagar as próprias contas para ter o privilégio de refletir com mais calma sobre outras questões existenciais. É a famosa pirâmide de Maslow: segurança vem antes de autorrealização. Em 2010, um grupo de pesquisadores da Arizona State University atualizou esse modelo com base em psicologia evolutiva, e a base não mudou: sobrevivência e segurança continuam sustentando tudo o resto.

Mas a partir daí, quando é que o mundo hierárquico que conhecemos entra em rota de colisão com você? Com o que você deseja de verdade? Até que ponto esse sucesso te leva, de fato, para uma vida bem-sucedida?

Nunca gostei desse papo de propósito. Parece colocar uma pressão maior em acertar uma resposta certeira do que em simplesmente ir vivendo, se conhecendo, se permitindo. E tem embasamento nisso: pesquisas em neurociência sobre curiosidade mostram que o circuito de dopamina é ativado pela busca do novo, não pela fixação num alvo único. Somos construídos para explorar, não para decidir de uma vez por todas qual é o nosso propósito.

Mas será que essa visão da complexidade da vida, e de nós mesmos, nos dá uma vida mais plena? Não tenho certeza. Talvez a resposta nem seja binária.

Quantas pessoas você já conheceu que são péssimas líderes? Será que é falta de habilidade, ou será que estão simplesmente no papel errado? Um estudo publicado na Quarterly Journal of Economics acompanhou 48 mil vendedores e 5 mil gestores em mais de 200 empresas americanas. Achou algo revelador: vendedores cujo desempenho individual mais crescia antes da promoção, quando viravam gestores, geravam uma queda média de 10% na performance do time. A empresa promove pela métrica errada, e todo mundo perde.

A McKinsey cita um dado parecido, da Gallup: só uma em cada dez pessoas tem, naturalmente, as características de um bom gestor, e as empresas erram a escolha em 82% das promoções para liderança. O resultado aparece em outro levantamento da própria McKinsey: 75% dos profissionais apontam o próprio chefe como a parte mais estressante do trabalho. E a relação com a liderança é o principal fator de satisfação no trabalho, atrás só da saúde mental na determinação do bem-estar geral de uma pessoa.

Empurrar todo mundo para o topo da mesma pirâmide não cria só gente infeliz. Cria líder ruim, time destruído, e uma cadeia inteira de gente no papel errado.

E aqui chega a pergunta prática que fica faltando: entendi que a régua da empresa não é a minha régua, e agora, o que eu faço? Mudar de caminho pode significar ganhar menos, pelo menos num primeiro momento, na aparência. Essa é a pergunta que a maioria evita fazer: depois que suas contas estão pagas, você está disposto a pagar o boleto da sua infelicidade? Porque ele existe. Só não chega pelo correio.

Segundo o professor Jeffrey Pfeffer, de Stanford, práticas de trabalho ruins — excesso de horas, falta de controle sobre a própria função, insegurança constante — respondem por mais de 120 mil mortes por ano nos Estados Unidos e US$ 190 bilhões em custos extras de saúde. Isso coloca o ambiente de trabalho como a quinta maior causa de morte no país, à frente de Alzheimer e doença renal. Em escala global, a Gallup calcula que o desengajamento no trabalho custa 8,8 trilhões de dólares por ano à economia mundial, quase 9% do PIB do planeta. Ninguém lança isso numa planilha de RH, mas o custo está lá, todo santo dia.

Esse é o cálculo que ninguém ensina a fazer: comparar o custo visível de mudar de caminho, talvez menos dinheiro, pelo menos no começo, com o custo invisível de ficar. É essa conta, feita com honestidade, que dá discernimento para escolher melhor. Não é escolher entre dinheiro e felicidade. É entender que os dois têm preço, e que só um deles aparece no extrato bancário.

Você sabe quanto custa olhar para trás e não sentir prazer pelo que fez ou faz?

Vai cuidar da sua carreira.

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Autora: Mariana Buratto é economista e atua no mercado corporativo há mais de 20 anos, os últimos 13 como headhunter. É fundadora da Blivy, consultoria especializada em decisões de talento e recrutamento para empresas e profissionais. Aplica neurociência comportamental à tomada de decisão, unindo evidência científica e prática de mercado para embasar resultados de negócio.

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