Empresas brasileiras começam a olhar para as contas a pagar e os próprios recebíveis não apenas como consequência das vendas, mas como uma oportunidade de criar uma nova fonte de receita financeira. Por meio de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) dedicados, indústrias, distribuidores e grandes companhias podem estruturar um braço financeiro para oferecer antecipação de pagamentos aos fornecedores, ampliar condições comerciais, melhorar seu ciclo de caixa, acessar fontes de captação mais baratas e participar dos resultados gerados pelo financiamento da própria cadeia produtiva. Nesse modelo, o fornecedor pode receber antecipadamente os valores de uma venda por meio do fundo, enquanto a empresa compradora mantém o pagamento na data acordada ou negocia condições mais favoráveis. A operação transforma uma relação comercial já existente em uma oportunidade de negócio financeiro, desde que a companhia participe da remuneração ou dos resultados da estrutura. O movimento ocorre em um mercado de maior demanda por alternativas de financiamento. Levantamento da Everblue mostra que, nos últimos 24 meses, o volume de crédito solicitado por empresas cresceu mais de 40%, enquanto o número de propostas recebidas avançou 30%. Para Gabriel Padula, CEO da Everblue, “a tendência é que cada vez mais companhias entendam que sua operação comercial também pode ser uma plataforma financeira. O objetivo não é substituir os bancos, mas criar uma estrutura complementar, capaz de transformar fluxos futuros em capacidade de investimento e crescimento”, afirma.
A principal mudança está na possibilidade de uma empresa que atua fora do setor financeiro passar a participar economicamente do crédito oferecido à sua cadeia de fornecedores. Em uma operação tradicional, o fornecedor que precisa receber antes do vencimento procura uma instituição financeira e paga pela antecipação. Com um FIDC dedicado, a indústria compradora pode organizar essa oferta dentro de uma estrutura vinculada ao seu negócio, reunindo fornecedores, investidores e mecanismos de análise de risco. O fornecedor recebe antecipadamente, o fundo adquire o direito creditório e a compradora liquida a obrigação na data estabelecida. Dependendo de como a operação é estruturada, a companhia pode participar do resultado financeiro por meio de investimentos em cotas ou de mecanismos de remuneração contratualmente previstos, observadas as regras aplicáveis. Além da possibilidade de receita adicional, o modelo fortalece a cadeia de abastecimento, melhora a previsibilidade dos pagamentos e pode abrir espaço para negociações comerciais mais vantajosas. A antecipação, portanto, deixa de ser apenas uma solução de liquidez e passa a integrar uma estratégia de financiamento de fornecedores, com custos, riscos e retornos definidos. “O FIDC deixou de ser apenas uma alternativa de captação e passou a ser uma ferramenta de gestão financeira. A empresa consegue conectar sua operação comercial com uma estrutura de crédito própria, criando mais previsibilidade para o caixa e eficiência na administração do capital”, afirma Gabriel Padula, CEO da Everblue. Nesse segmento, a companhia informa possuir atualmente R$ 200 milhões em FIDCs exclusivos e estabelece como meta alcançar R$ 800 milhões até o final de 2027, um crescimento projetado de 300%, equivalente a quadruplicar o volume atual.
Uma simulação elaborada pela Everblue ajuda a dimensionar como um FIDC dedicado pode reduzir despesas financeiras e criar uma nova fonte de receita para empresas não financeiras. Em uma indústria com R$ 500 milhões de faturamento anual e R$ 375 milhões em pagamentos a fornecedores por ano, as obrigações mensais chegam a aproximadamente R$ 31,25 milhões. Considerando que a companhia recebe de seus clientes em 75 dias e paga seus fornecedores em 30 dias, precisa financiar um intervalo de 45 dias, equivalente a R$ 46,9 milhões em capital de giro. Com um FIDC dedicado, a indústria poderia oferecer antecipação aos fornecedores e negociar a ampliação do prazo de pagamento de 30 para 45 dias. Nesse cenário hipotético, a necessidade de financiamento cairia para R$ 31,25 milhões, liberando R$ 15,6 milhões em capital de giro. Considerando também um custo de financiamento de 2,3% ao mês para a compradora, a redução representaria uma economia estimada de R$ 359 mil mensais, ou R$ 4,3 milhões por ano. A estrutura poderia gerar ainda uma nova frente de receita financeira. Nas condições simuladas, as antecipações movimentariam aproximadamente R$ 1,1 milhão em encargos financeiros brutos por mês dentro do fundo. Se metade desse valor se convertesse em resultado líquido, após custos e perdas, e a indústria tivesse direito a 20% desse resultado, poderia receber aproximadamente R$ 110 mil mensais, ou R$ 1,3 milhão por ano, como rendimento de sua participação no FIDC.
A aposta nos fundos exclusivos acompanha uma nova etapa de expansão da Everblue. Após atingir R$ 4,6 bilhões em operações de crédito e superar 10 mil operações realizadas, o grupo pretende destinar aproximadamente R$ 270 milhões em crédito ao primeiro ciclo de sua estratégia de expansão nacional, com início pela região Sul do Brasil. O plano inclui reforço da diretoria comercial, contratação de executivos e ampliação da originação junto a empresas que possam utilizar estruturas de financiamento para fornecedores e outras soluções de crédito corporativo. A companhia também projeta viabilizar mais R$ 10 bilhões em crédito para a indústria nos próximos três anos, em um ambiente no qual o custo do dinheiro ainda pressiona o capital de giro e torna mais relevante a diversificação das fontes de financiamento. Para as empresas não financeiras, a criação de um FIDC dedicado oferece a possibilidade de associar receita financeira, estabilidade da cadeia produtiva e maior eficiência na gestão do capital. O desafio, porém, é fazer essa expansão com lastro verificável, acompanhamento da carteira e critérios rigorosos de concessão, conforme o ambiente regulatório dos fundos estabelecido pela Resolução CVM 175. “A diferença daqui para frente estará na qualidade da estrutura. O mercado já entendeu que existe demanda por crédito fora dos bancos, mas o crescimento sustentável dependerá de lastro verificável, dados operacionais confiáveis, governança na originação e disciplina na gestão de risco. Sem isso, o crédito privado cresce em volume, mas não necessariamente em qualidade”, afirma Padula.