Nicolás Maduro e a Doutrina Monroe

Análise

Nicolás Maduro e a Doutrina Monroe | Artigo por Khaled Louhichi, Head de Research Wealth Management

Os acontecimentos do final de semana passado marcaram uma mudança significativa no cenário geopolítico da América Latina. Operações militares direcionadas dos Estados Unidos foram conduzidas contra a infraestrutura estratégica na Venezuela, resultando na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa.

Pouco depois, o presidente dos Estados Unidos referiu-se explicitamente à Doutrina Monroe, reafirmando uma interpretação contemporânea da soberania regional. 

Esta sequência deve ser interpretada como um sinal estratégico de cunho estrutural, e não como um evento isolado.

Ela reflete uma reconfiguração mais ampla da política externa norte-americana, caracterizada pela reorientação geográfica, priorização mais rigorosa de interesses e disposição mais explícita para recorrer a dinâmicas de poder quando interesses considerados vitais estão em jogo. 

A operação também demanda análise por uma perspectiva econômica e energética. A Venezuela detém algumas das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo.

Qualquer estabilização política poderia, em teoria, permitir que o país produzisse muito mais petróleo do que faz hoje (antes de 2017, o país produzia aproximadamente o dobro do volume atual).

Entretanto, liberar esse potencial exigirá modernização significativa da indústria e da base de ativos, que atualmente opera bem abaixo dos padrões do setor.

Fatores-chave 

• Os Estados Unidos realizaram ataques aéreos contra alvos militares em Caracas e em áreas ao redor da capital, antes de avançarem sobre um complexo militar e uma instalação presidencial.

• Esta operação resultou na captura do Nicolás Maduro e de sua esposa, com relatos da imprensa sugerindo que pelo menos 40 pessoas possam ter morrido no ataque.

• Pouco depois, uma declaração presidencial dos Estados Unidos reafirmou explicitamente a referência à Doutrina Monroe, ressaltando sua relevância para a política regional.

• As reações internacionais foram variadas, com alguns atores manifestando preocupações quanto à soberania nacional e ao arcabouço jurídico da intervenção.

Leitura Política e Estratégica

A referência à Doutrina Monroe não é um mero lembrete histórico; reflete um esforço deliberado para redefinir o marco operacional estratégico dos Estados Unidos.

• A América Latina é reafirmada como uma área estratégica prioritária.

• A influência de atores extra-regionais está sendo progressivamente caracterizada como uma preocupação direta de segurança.

• Os Estados Unidos parecem estar adotando uma abordagem de esfera de influência, em vez de uma estritamente normativa ou multilateral.

De natureza historicamente defensiva, a Doutrina Monroe é, aqui nesta análise, mobilizada para justificar ação direta quando o equilíbrio regional é percebido como ameaçado.

A Orientação Estratégica dos Estados Unidos 

A Estratégia de Segurança Nacional publicada em novembro de 2025 fornece um marco interpretativo claro para os recentes desenvolvimentos. O documento declara explicitamente a intenção dos Estados Unidos de reafirmar e fazer cumprir a Doutrina Monroe no Hemisfério Ocidental, por meio de uma reorientação estratégica voltada a impedir que qualquer potência extra-hemisférica controle ativos ou infraestrutura considerados estratégicos. 

A estabilidade latino-americana é definida como um interesse vital, notadamente para conter fluxos migratórios, combater o tráfico de entorpecentes e garantir cadeias de suprimentos. A estratégia reconhece abertamente uma lógica de esferas de influência, estabelecendo um vínculo direto entre segurança nacional, segurança energética e controle sobre recursos estratégicos. 

Por fim, embora o documento reconheça uma preferência geral pela não intervenção, ele afirma explicitamente que esse princípio não se aplica quando interesses fundamentais são diretamente ameaçados, legitimando assim o recurso a uma ação unilateral. 

Implicações Setoriais – Energia 

A atual fraqueza da produção e exportação de petróleo venezuelano reflete uma combinação de fatores. As sanções internacionais constrangeram severamente os fluxos de exportação e os canais de logística. Simultaneamente, a base produtiva sofre com questões estruturais de longa data: investimento crônico insuficiente, degradação da infraestrutura, perda de expertise e limitações operacionais.

No curto prazo, os eventos recentes dificilmente afetarão materialmente o suprimento global de petróleo. Em médio prazo, o potencial energético do país permanece significativo, mas qualquer normalização exigiria estabilização política, um quadro institucional clarificado e investimentos substanciais, particularmente em serviços de campo petrolífero, engenharia e manutenção. 

Implicações de Mercado – Dívida de Mercados Emergentes

• Venezuela: a dívida soberana e quase soberana permanece em default. O perfil continua distressed e orientado por eventos, condicionado a um processo político e jurídico claramente definido.

• Colômbia: está indiretamente exposta pela proximidade geográfica. A volatilidade de curto prazo movida por sentimento é possível, mas não representa, por ora, qualquer desafio imediato aos seus sólidos fundamentos macrofinanceiros.

Conclusão Multissetorial: O episódio venezuelano confirma um ambiente internacional fragmentado, progressivamente moldado por dinâmicas de poder e esferas de influência. 

• Energia: impacto limitado no curto prazo, porém com opcionalidade estratégica em médio prazo condicionada à estabilização política e investimentos significativos. 

• Dívida de mercados emergentes: maior diferenciação entre países com fundamentos resilientes e situações idiossincráticas extremas. 

• Ativos regionais: maior volatilidade, sem indícios de contágio sistêmico neste momento. Nesse contexto, disciplina de seleção e análise granular de risco país permanecem centrais para alocação eficiente de ativos.

Autor: Khaled Louhichi, Head de Research Wealth Management

Leia mais:

Aplicativo Grana Capital: a solução para o Imposto de Renda de investimentos na bolsa de valores

NLFA11 – Conheça o ETF de crédito privado da Nu Asset

TAGC11 – Conheça o Fiagro da TAG Edge

GOLB11 – Conheça o ETF de Ouro negociado na bolsa de valores

Nu Asset lista ETF de Tesouro Selic na B3

GICP11 – Genial anuncia ETF de crédito privado

ETFs da Nu Asset investem em renda fixa nos EUA

BlackRock e B3 expandem listagem de ETFs globais