Em um país marcado pela judicialização excessiva das relações, especialmente no âmbito familiar, há alguns anos cresce o debate sobre a necessidade de buscar formas mais eficientes, humanas e responsáveis de resolver conflitos.
Divórcios, disputas sucessórias e conflitos empresariais na maioria das vezes chegam ao Judiciário carregados de ruídos de comunicação e disputas emocionais que vão muito além do aspecto jurídico.
Com sólida formação acadêmica, mestrado e múltiplas pós-graduações na área jurídica, atuação contínua na docência em instituições de excelência e mais de vinte anos de experiência em mediações e litígios de alta complexidade, Vivian Zalcman consolidou-se como uma das principais especialistas em resolução estratégica de conflitos no Brasil. Sua atuação abrange disputas familiares, sucessórias, empresariais e transnacionais envolvendo elevado grau técnico, patrimonial e emocional. Ao integrar práticas consensuais ao sistema judicial, contribui diretamente para a eficiência institucional, a redução do congestionamento processual e o fortalecimento da cultura de pacificação social. Para ela, a mediação representa uma ferramenta de liderança jurídica, responsabilidade pública e inovação no sistema de Justiça.
“Não é de hoje que a mediação é uma alternativa capaz de transformar o conflito em diálogo, evitando que o processo judicial se torne um prolongamento do sofrimento”, afirma a advogada Vivian Zalcman, mediadora com mais de duas décadas de experiência na área de Direito de Família e métodos adequados de resolução de conflitos.
Com trajetória acadêmica consistente, atuação na docência e prática consolidada tanto em mediações quanto em casos de alta complexidade litigiosa, Vivian defende que a mediação não substitui o Judiciário, mas o complementa de forma estratégica. Para ela, escolher o caminho consensual quando possível não é sinal de fragilidade, mas de maturidade técnica e responsabilidade social.
Por que você afirma que nem todo conflito precisa virar um processo judicial?
Porque o processo judicial deveria ser uma ferramenta de última instância, e não uma resposta automática à dor, à frustração ou ao rompimento de vínculos. Em muitos conflitos, especialmente no Direito de Família, o litígio tende a aprofundar feridas emocionais, cristalizar posições e prolongar sofrimentos que poderiam ser elaborados de outra forma. A mediação oferece algo que nenhuma sentença consegue entregar: diálogo estruturado, responsabilização consciente e a possibilidade real de construção conjunta de soluções que façam sentido para aquela família, naquele contexto específico.
Existe a percepção de que recorrer à mediação é sinal de fraqueza. Como você vê isso?
Vejo exatamente o contrário. A mediação exige maturidade emocional, preparo técnico e disposição para assumir o protagonismo das próprias decisões. É uma forma sofisticada de resolver conflitos, porque não transfere integralmente o problema para um terceiro decidir. Em países onde a cultura da mediação está mais consolidada, recorrer ao diálogo estruturado é visto como sinal de inteligência estratégica. No Brasil, ainda estamos amadurecendo esse olhar.
Em quais casos a mediação costuma ser mais eficaz?
Ela é especialmente eficaz em disputas familiares, sucessórias e empresariais, com destaque para empresas familiares. Sempre que existe, ou precisa existir, algum tipo de relação futura entre as partes, a mediação se mostra o caminho mais saudável. Isso inclui divórcios com filhos, reorganizações patrimoniais complexas e conflitos entre sócios que, apesar das divergências, precisam preservar vínculos ou reputações.
E quando a mediação não é indicada?
Quando há violência, abuso, desequilíbrio extremo de forças ou impossibilidade real de diálogo. Nessas situações, o Judiciário é absolutamente essencial. A mediação não substitui o processo judicial — ela o antecede quando é possível e adequada. Saber reconhecer esse limite também é parte da responsabilidade técnica do mediador.
Você atua há anos como advogada familiarista. Como isso impacta sua prática como mediadora?
Impacta completamente. Eu conheço profundamente o litígio, as estratégias, os riscos e os custos (emocionais, financeiros e reputacionais) de um processo judicial. Talvez justamente por isso eu saiba identificar quando ele é desnecessário. Guardo a energia, minha e do sistema de Justiça, para os casos que realmente exigem enfrentamento. Nos demais, a mediação costuma ser muito mais eficiente e humana.
O que muda quando um conflito é resolvido pela mediação?
Muda o depois. Vejo famílias se reorganizarem, pais voltarem a dialogar, filhos deixarem de ocupar o lugar simbólico do conflito. A mediação não apaga o que aconteceu, mas transforma a forma como o conflito é elaborado e seguido adiante. Isso tem impacto direto na saúde emocional das pessoas e na estabilidade das relações futuras.
Você costuma dizer que o divórcio pode ser uma bênção. Pode explicar?
Quando um relacionamento se sustenta apenas pelo conflito, insistir nele é adoecer todos os envolvidos. A mediação permite que as pessoas sigam caminhos separados, mas emocionalmente mais saudáveis e conscientes. Isso não significa banalizar o rompimento, mas tratá-lo com responsabilidade. Em muitos casos, é libertador para os adultos e, principalmente, para os filhos.
Por que o Brasil ainda é um país tão litigante?
É uma questão cultural. Fomos historicamente educados a transferir nossos conflitos para o Estado. Em outros países, especialmente na Europa e na América do Norte, o diálogo estruturado e os métodos consensuais fazem parte da formação social e jurídica desde cedo. A mediação promove exatamente essa mudança de mentalidade, que vai muito além do Judiciário.
Você também atua em disputas familiares internacionais. Como a mediação se aplica nesses casos?
Nos conflitos transnacionais, a mediação se torna ainda mais estratégica. Quando há patrimônio, residência ou vínculos jurídicos em diferentes países, o litígio tradicional costuma gerar múltiplos processos em jurisdições distintas, com alto custo e baixa previsibilidade. A mediação permite soluções mais flexíveis, compatíveis com diferentes sistemas jurídicos e culturas, além de reduzir significativamente o desgaste emocional das partes. Nesses casos, sensibilidade cultural, domínio técnico e comunicação muito bem alinhada são fundamentais.
Qual é o maior erro que você observa em disputas familiares judicializadas?
Confundir mágoa com direito. O processo vira palco de ressentimentos, e os filhos, muitas vezes, acabam pagando a conta. A mediação ajuda a separar o que é emocional do que é jurídico, protegendo as próximas gerações e permitindo que o conflito seja resolvido de forma proporcional, responsável e humana.