Mais de R$24 bilhões estão no centro de uma disputa que começa a sair dos bancos. Esse é o volume de receita adicional que os serviços de finanças embarcadas podem gerar no Brasil até 2026, especialmente em setores voltados ao consumidor. A projeção ajuda a dimensionar uma mudança que vai além das fintechs: empresas tradicionais começam a perceber que parte do relacionamento financeiro com seus próprios clientes ainda é monetizada por bancos, adquirentes e outros intermediários. O movimento aparece com força no atacado distribuidor, setor que faturou R$616,6 bilhões em 2025 e atende mais de 1,18 milhão de pontos de venda. Nesse mercado, vender mercadoria a prazo significa também conceder crédito, carregar recebíveis, assumir risco de inadimplência e administrar cobranças. A diferença é que essas atividades nem sempre são tratadas como uma operação financeira capaz de gerar resultado dentro da própria companhia.
A reorganização desse fluxo abre espaço para que empresas capturem uma parcela maior da receita produzida dentro da própria cadeia sem necessariamente se transformarem em bancos. Um estudo da Finscale, especializada na estruturação de operações financeiras para empresas, analisou distribuidoras dos segmentos de atacado, alimentos e materiais de construção e identificou R$16,8 milhões em novas receitas e economias no cenário completo da sua reorganização financeira. Os projetos apresentaram retorno estimado entre 6,6 e 18 vezes o investimento e payback entre 2 e 9 meses, dependendo da estrutura analisada. O ganho aparece em diferentes pontos, como crédito concedido aos clientes, antecipação de recebíveis, adquirência, cobrança, spread financeiro e redução de inadimplência. “Uma empresa não precisa se transformar em banco para perceber que já concede crédito, processa pagamentos e assume riscos financeiros todos os dias. Quando ela conhece sua cadeia, possui dados reais dos clientes e estrutura essa operação corretamente, começa a disputar uma parcela da receita que antes parecia naturalmente bancária”, afirma Letícia Moschioni, sócia da Finscale.
Os levantamentos da empresa apontam como esse valor aparece dentro de operações que, à primeira vista, vivem exclusivamente da venda e distribuição de produtos. Em uma distribuidora de atacado com cerca de 1.700 clientes B2B, 90% das vendas são realizadas a prazo e aproximadamente R$ 9 milhões permanecem girando em recebíveis. Ao analisar esse fluxo, o estudo da Finscale identificou 7 frentes capazes de gerar novas receitas ou reduzir custos. Entre as principais estão cerca de R$ 1,21 milhão líquido por ano com meios de pagamento e R$ 1,08 milhão com a reorganização do spread cobrado nas vendas a prazo, além de ganhos com redução da inadimplência e outras frentes financeiras. No total, a reorganização financeira foi estimada em R$3,3 milhões entre novas receitas e economias no primeiro ano, valor equivalente a aproximadamente 36,7% dos R$ 9 milhões em recebíveis que já circulam na operação. Em outra distribuidora, de alimentos, com mais de 6 mil estabelecimentos ativos, faturamento mensal superior a R$22 milhões e mais de 25 mil boletos emitidos mensalmente, apenas mudanças na emissão de boletos e conciliação representam economia anual superior a R$ 130 mil, antes mesmo das novas receitas. Já o projeto elaborado para uma distribuidora de materiais de construção com 7 mil lojistas estimou R$ 10,7 milhões em nova receita no quinto ano, combinando crédito, antecipação, adquirência, seguros e conta transacional. São casos específicos, mas que repetem um padrão: crédito, spread e meios de pagamento concentram parte relevante do valor financeiro existente dentro dessas relações comerciais.
A discussão ganha peso em um momento em que o custo do dinheiro continua pressionando empresas brasileiras. O Copom reduziu a Selic para 14% ao ano em agosto, mas a taxa básica permanece em nível elevado e continua influenciando diretamente o custo de empréstimos, financiamentos e capital de giro. A inadimplência empresarial também permanece em patamar recorde: 9 milhões de CNPJs estavam negativados em maio, alta de 17,4% em 12 meses, somando R$ 229,9 bilhões em dívidas. Nesse ambiente, financiar clientes sem mensurar adequadamente o risco, antecipar recebíveis de forma recorrente e entregar integralmente a terceiros a receita associada aos pagamentos pesa cada vez mais sobre a margem. Os R$ 24 bilhões estimados para o mercado de finanças embarcadas ajudam a mostrar o tamanho econômico dessa transformação. “Com juros altos e maior pressão sobre o caixa, as empresas começam a olhar para o próprio fluxo financeiro com outra lógica. Crédito, pagamentos e recebíveis deixam de ser apenas áreas de custo e passam a ser avaliados também pela receita que podem gerar e pela dependência de terceiros que podem reduzir”, afirma Moschioni.