Dívida pública: a polêmica que enriquece os rentistas

Contas públicas

Dívida pública: a polêmica que enriquece os rentistas com juros altos  

A dívida líquida do setor público aumentou para R$ 9,2 trilhões e alcançou 69,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto de 2026, segundo dados oficiais do Banco Central. O patamar da Dívida Bruta do Governo Central (DBGC) atingiu 82,9% do PIB, percentual considerado elevado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para países emergentes como o Brasil.

Conforme informações do Relatório da Dívida Pública do Tesouro, o volume de títulos públicos federais que está no mercado alcançou a marca de R$ 9,292 trilhões em agosto de 2026. Mas afinal, o que significa todo esse volume de dívida em títulos públicos federais? A resposta é simples e de difícil compreensão para muitos eleitores preocupados com o endividamento do governo: esse volume significa que os credores confiam e estão depositando, investindo ou guardando seus recursos em aplicações com juros pagos e garantidos pelo Tesouro Nacional (ou seja, por nós, contribuintes de impostos) por um prazo médio de 4,1 anos.

Desse volume total de R$ 9,292 trilhões, uma fatia principal de 96,25% está em títulos em reais (R$ 8,945 trilhões) por um prazo médio de 4 anos, e uma fatia pequena, de 3,75% está em moeda estrangeira (dólares e euros), equivalente a R$348 bilhões, por um prazo de até 7 anos.

Diante desses números, qual o risco para os credores? Resposta: nenhum. Não há risco de calote em reais (o risco último é ninguém financiar a dívida, o governo emitir moeda, pagar a dívida e gerar hiperinflação) e não há qualquer risco de calote em moeda estrangeira quando nosso Banco Central possui US$ 270 bilhões (cerca de R$ 1,35 trilhão) em reservas internacionais.

Mas e a polêmica em torno do aumento da dívida? Aqui vai a minha modesta opinião: essa polêmica é alimentada por credores que exigem juros maiores. O governo gasta acima das receitas, o chamado “déficit nas contas públicas” e rola sua dívida para frente. Não é o fim do mundo. Países desenvolvidos (ricos) também devem muito mais que o Brasil e rolam suas dívidas. Para resolver essa questão, o governo brasileira precisa mostrar equilíbrio nas contas públicas e produzir algum “superávit” para que essa pressão de credores rentistas fique sem nenhum argumento.

O que posso dizer é que o nosso Banco Central é “bonzinho” com o mercado e estabelece juros elevados para controlar a inflação. Segundo os dados do relatório do Tesouro, o custo médio da dívida foi de 12,6% nos últimos 12 meses até o final de agosto. Num estoque de R$ 9,292 trilhões isso equivale ao pagamento de R$ 1,17 trilhão em juros. Para efeito de comparação, em agosto de 2025, o estoque dessa mesma dívida estava no montante de R$ 8,145 trilhões, uma diferença de R$ 1,147 trilhão de aumento nominal. Em outras palavras, o aumento da dívida ocorreu somente por causa dos juros, sem qualquer relação com novos recursos via dívida pelo governo.

A propaganda eleitoral do candidato Flavio Bolsonaro (PL) usou a marca arredondada de R$ 1,2 trilhão como “rombo” nas contas públicas. Esse “rombo” foi pago pelo Tesouro e garantiu o aumento do patrimônio dos credores. Esse “rombo” pode ser chamado de “Bolsa Juros”, o maior programa de transferência de renda do mundo, sete vezes maior que orçamento anual do Bolsa Família.  

Mas quem recebeu essa montanha de juros (R$ 1,17 trilhão) paga pelo contribuinte nos últimos 12 meses? De acordo com o boletim da dívida do Tesouro, os maiores credores são: Instituições Financeiras (31,22%), Previdência Privada (22,63%), Fundos de Investimento (22,52%), Estrangeiros (9,91%), Seguradoras (3,34%), Pessoas Físicas no Tesouro Direto (3,04%), Governo (2,58%) e outros (4,76%).

Basta olhar atentamente os percentuais acima para compreender o motivo de economistas de bancos e de gestoras de fundos de investimentos e de previdência defenderem tanto a necessidade de juros maiores (estabelecidos pelo Banco Central) para controlar a inflação.

Eu, como investidor pessoa física estou feliz com o rendimento do Tesouro Direto, dá mais de 1% ao mês, sem risco nenhum. Mas, como contribuinte, sei que terei que pagar mais impostos para bancar essa farra dos juros altos.

Vamos ser objetivos. É justo que os credores recebam os juros de suas aplicações financeiras. Afinal, os investidores da dívida guardaram sua poupança no Tesouro.

Na minha modesta opinião, o problema não é o tamanho da dívida, mas sim, o percentual exigido pelo mercado nos juros da dívida. Vou mostrar abaixo porque o tamanho da dívida não é um problema.

Dívida pública nos países ricos

Nos países desenvolvidos, a dívida em relação ao PIB é maior e os juros são menores: Japão, dívida em 249% do PIB, com juros próximos de zero; EUA (123% do PIB); Itália (134% do PIB), França (118% do PIB), Bélgica (108% do PIB), Reino Unido (102% do PIB), Espanha (101% do PIB). E mesmo entre os emergentes do G-20 (grupo dos 20 países mais ricos), a China possui uma dívida de 99% do PIB, e a Índia com 82% do PIB, similar ao do Brasil. Os percentuais mostram que os investidores de dívida confiam suas reservas (poupança) nos respectivos Tesouros de seus países, e são devidamente remunerados por suas aplicações financeiras.  

Mercado exige mais juros do Tesouro

Em outras palavras, o chamado “mercado” no Brasil está cobrando caro por um problema “aumento da dívida pública” criado por juros altos. Pelo andar do crescimento nominal da dívida pública, acredito que o melhor caminho para o “próprio mercado” seria indicar e pressionar por juros mais baixos e garantir que sua “galinha de ovos de ouro” continue distribuindo recursos, mas sem exigir demais dos contribuintes. Veja as manifestações na Europa e reflita sobre o assunto.

Não é o governo que está criando uma crise fiscal. É o “mercado”. A melhor forma do governo administrar a dívida é com o crescimento do PIB. Se a economia cresce, a relação dívida/PIB cai, e, todos ganham: os credores recebem a sua parte, e os contribuintes pagam impostos mais justos. Se os juros seguirem elevados, todos (credores e contribuintes) vão pagar com recessão e o aumento da inadimplência de empresas e de pessoas físicas.

Dito isso, qual candidato é melhor? Aquele que fará um ajuste fiscal muito forte (corte de R$ 250 bilhões) que provocará uma recessão? Ou aquele que foi o único presidente desde a redemocratização a entregar superávit nas contas públicas?

Conteúdo: Todos os dados são públicos e podem ser encontrados com uma rápida busca no Google e em relatórios do Tesouro e do Banco Central.

Autor: Ernani Fagundes é jornalista especializado (MBA) em informações econômico-financeiras e mercado de capitais.

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