O dinheiro destinado a projetos sociais no Brasil atingiu um dos maiores patamares da história. Mas, enquanto empresas e fundações ampliam seus investimentos em educação, inclusão e sustentabilidade, cresce também a discussão sobre o que significa liderar uma grande companhia para além dos resultados financeiros.
Em 2024, o investimento social privado brasileiro alcançou R$ 5,8 bilhões, o segundo maior volume da série histórica, superado apenas pelo registrado durante a pandemia de Covid-19, em 2020. Os dados são do Censo GIFE 2024–2025, que reuniu informações de 138 organizações ligadas ao investimento social privado.
O crescimento dos recursos, entretanto, não encerra uma questão que acompanha o mundo corporativo. Como avaliar o impacto de uma empresa na sociedade e distinguir compromissos anunciados de transformações efetivamente realizadas?
A pergunta ganha relevância em um ambiente marcado pela desconfiança. O Edelman Trust Barometer 2026, que ouviu 33.938 pessoas em 28 países, identificou que sete em cada dez entrevistados hesitam ou estão pouco dispostos a confiar em pessoas com valores e visões diferentes das suas. No Brasil, essa proporção chega a 72%.
É nesse cenário que executivos de algumas das maiores companhias do país passaram a compartilhar experiências sobre o papel das empresas em questões sociais, em uma série de entrevistas que reúne lideranças de setores como aviação, tecnologia, varejo, educação e finanças.
Entre os participantes estão Diego Barreto, do iFood; Jerome Cadier, da LATAM Brasil; John Rodgerson, da Azul; e André Farber, da Riachuelo.
As conversas fazem parte do Impacto S.A., produção da BM&C News, canal dedicado à cobertura de economia e negócios, apresentada pela advogada e articuladora internacional Daniela Kallas e pela jornalista Isabela Tacaki.
O programa estreou em 16 de agosto com Diego Barreto e David Hertz, cofundador da Gastromotiva, em um debate sobre empreendedorismo, tecnologia, futuro do trabalho e responsabilidade social.
A proposta é examinar decisões e iniciativas que raramente ocupam o centro das entrevistas tradicionais com grandes empresários, normalmente concentradas em crescimento, faturamento, resultados e estratégias de expansão.
“Ao longo da minha trajetória, conheci iniciativas extraordinárias lideradas por empresários que decidiram usar sua capacidade de mobilização para enfrentar desafios sociais reais. Muitas dessas histórias permanecem pouco conhecidas”, afirma Daniela Kallas.
O desafio de transformar recursos em resultados
Apesar do avanço dos investimentos sociais, o volume de recursos mobilizados não representa, por si só, uma medida dos benefícios entregues à população.
Os dados do GIFE mostram que institutos e fundações empresariais continuam entre os principais responsáveis pelo financiamento de iniciativas sociais no Brasil. Em 2024, essas organizações destinaram R$ 3,2 bilhões a projetos de interesse público.
A educação permanece entre as prioridades do setor. Segundo o levantamento, 67% das organizações participantes apoiam iniciativas nessa área. Desenvolvimento comunitário, inclusão produtiva, empreendedorismo e geração de renda também aparecem entre os principais campos de atuação.
A distribuição dos investimentos, a continuidade dos projetos e a avaliação de seus resultados fazem parte dos desafios enfrentados por instituições que procuram transformar recursos privados em benefícios coletivos.
Para Kallas, a discussão também exige olhar para as pessoas responsáveis pelas decisões.
“Mais do que falar sobre empresas, queremos contar histórias que inspiram novas formas de liderar e transformar”, diz a apresentadora.
Das decisões corporativas ao impacto nas comunidades
Além dos dirigentes de iFood, LATAM, Azul e Riachuelo, a primeira temporada reúne Beatriz Johannpeter, do Instituto Helda Gerdau; Luiz Fernando Figueiredo, da Fefig e da Jubarte Capital; Emerson Lima, da Sauter; Patrícia Cardim, da Belas Artes; e Carol Ragazzi, do Mulheres do Mercado.
A diversidade dos convidados permite observar como as discussões sobre responsabilidade social chegam a setores com modelos de negócios, públicos e desafios distintos.
Na aviação, na alimentação, no varejo ou na educação, decisões relacionadas à formação profissional, à inclusão e à sustentabilidade envolvem não apenas investimentos financeiros, mas também a capacidade das organizações de mobilizar pessoas, estabelecer parcerias e manter projetos ao longo do tempo.
“Acreditamos que compreender a atuação das grandes lideranças também passa por conhecer as escolhas, os valores e os projetos que contribuem para transformar a sociedade. É essa conversa que queremos levar ao público”, afirma Paula Moraes, CEO da BM&C.
Em um país onde bilhões de reais são destinados anualmente a iniciativas sociais, o debate sobre responsabilidade empresarial passa também pela prestação de contas e pela avaliação dos resultados alcançados.
A questão que permanece é até que ponto o sucesso de uma liderança deve ser medido apenas pelos resultados que entrega aos acionistas ou também pelas consequências de suas decisões para funcionários, comunidades e a sociedade.