Da eliminação do Brasil às lições para as empresas

Negócios

Da eliminação do Brasil às lições para as empresas | Artigo por Julian Tonioli, sócio-fundador e CEO da Auddas.

Todo mundo ficou chateado. A eliminação mexeu com a torcida, com o orgulho e com aquela velha esperança brasileira de que, no futebol, sempre pode acontecer alguma coisa no fim. A gente torce, sofre, acredita e, mesmo quando os sinais não são tão favoráveis, insiste em imaginar um caminho possível.

Mas existe uma diferença importante entre torcer e analisar com frieza. No futebol, como na vida e nos negócios, a emoção costuma enxergar possibilidades que os fatos nem sempre sustentam. Ainda assim, a derrota deixa sempre uma questão incômoda. Não apenas sobre o jogo, mas sobre comportamento, liderança e tomada de decisão. A discussão sobre quem deveria ter batido o pênalti talvez seja menos sobre futebol e mais sobre protagonismo.

Havia um plano. A comissão técnica definiu uma ordem, estabeleceu uma estratégia, organizou responsabilidades. Isso é natural. Times precisam de planejamento. Empresas também. Sócios, diretores e gestores desenham caminhos, criam metas, fazem reuniões estratégicas, distribuem funções e acreditam que, se tudo for seguido conforme o combinado, o resultado virá. O problema é que a vida real raramente respeita planilhas e PowerPoint.

No campo, como no mercado, a execução acontece sob pressão, com ruído, mudança de cenário, medo, confiança, oportunidade e improviso. Aquilo que foi decidido antes precisa conversar com aquilo que está acontecendo agora. E é justamente nesse ponto que aparecem os verdadeiros protagonistas.  

O ponto central não é se o jogador Bruno deveria ou não bater. A pergunta mais profunda é outra: porque Vini Júnior, sendo uma das principais lideranças da equipe, não pegou a bola, colocou debaixo do braço e disse: “Eu vou bater”? Não como gesto de vaidade. Não como desrespeito ao plano. Mas como leitura de momento. “Eu entendi o que foi combinado. Eu sei qual era a ordem. Mas estou bem. Estou confiante. Sou uma referência deste time. Eu assumo.” Dificilmente alguém, diante disso, responderia apenas: “Mas o técnico mandou ser diferente”.

Essa é uma imagem poderosa porque ultrapassa o futebol. Dentro das empresas, situações parecidas acontecem todos os dias. Existe um planejamento, mas existe também a linha de frente. Existe a estratégia, mas existe também quem está diante do cliente, da crise, da negociação, do produto, da operação e da pressão concreta do momento. Existe a alçada e a autonomia.

E uma companhia que deseja formar líderes de verdade não pode criar pessoas que apenas cumprem instruções. Precisa formar gente capaz de entender o plano, respeitar a direção e, quando necessário, ter coragem para adaptar a rota em nome do melhor resultado desde que respeitando o código central de valores, a cultura e o propósito do negócio. Isso é empoderamento real.

Empoderar não é colocar no slide que o time tem autonomia. Não é repetir em reuniões que todos são donos. Não é dizer que a empresa valoriza protagonismo enquanto, na prática, pune quem toma decisão fora do script. Empoderar é criar um ambiente em que as lideranças saibam que podem agir quando a realidade exige. É permitir que quem está na ponta não se esconda atrás da hierarquia. É deixar claro que o plano é uma bússola, não uma algema.

Claro que autonomia não pode ser confundida com individualismo. O protagonista verdadeiro não age por ego, age por responsabilidade. Ele não atropela a estratégia para aparecer. Ele assume o risco porque entende o contexto, sente o momento e sabe que, naquela circunstância, a omissão também é uma decisão. Esse talvez seja o aprendizado mais duro.

Muitas organizações dizem querer pessoas protagonistas, mas formam executores obedientes. Querem gente com iniciativa, desde que a iniciativa confirme exatamente o que já estava previsto. Querem liderança, desde que ninguém desafie a ordem estabelecida. Querem coragem, mas sem desconforto. Só que protagonismo sem liberdade é apenas discurso corporativo.

No futebol, no empreendedorismo e na vida, planejamento é indispensável. Mas nenhum plano substitui a lucidez de quem está vivendo o momento decisivo. A estratégia prepara. A liderança interpreta. A coragem executa.

A grande lição que fica não é sobre uma cobrança perdida ou uma escolha específica. É sobre a cultura que construímos nos nossos times. Estamos formando pessoas capazes de assumir a bola quando o jogo aperta? Ou estamos formando profissionais que, diante da decisão mais importante, preferem apontar para o banco e dizer que apenas seguiram o combinado? Porque, no fim, quem se esconde atrás do plano pode até cumprir uma função. Mas dificilmente será protagonista.  

Autor: Julian Tonioli é sócio-fundador e CEO da Auddas

Leia mais:

Como evitar dívidas? Apostas esportivas impactam seu bolso

Grana Capital cria solução tecnológica para contadores do Imposto de Renda