Prévia do indicador macroeconômico aponta que resultado foi afetado pelo cenário internacional adverso e pela pressão inflacionária
O IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central) recuou 0,7% em março de 2026 em relação a fevereiro de 2026, na série com ajuste sazonal, com variações de -0,2% na agropecuária, -0,2% na indústria e -0,8% em serviços. O IBC-Br excluindo a agropecuária recuou 0,9% no mês. No trimestre encerrado em março de 2026 ante o trimestre terminado em dezembro de 2025, o IBC-Br apresentou alta de 1,3%. Nos últimos 12 meses, o indicador avançou 1,8%.
O indicador foi criado para acompanhar o desempenho da economia brasileira de forma mais rápida e frequente. Ele funciona como um termômetro da atividade econômica, reunindo dados da indústria, comércio, serviços e agropecuária. É divulgado mensalmente, permitindo uma leitura mais ágil da evolução econômica do país.
Seguem abaixo comentários de especialistas a sobre o IBC-Br, considerado uma prévia do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro.
Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD
O IBC-Br, considerado uma prévia do PIB, veio mais fraco do que o mercado esperava e reforça a percepção de que a economia brasileira começou a perder fôlego no fim do primeiro trimestre.
O indicador recuou 0,67% em março, bem abaixo da expectativa de queda de 0,40%, puxado principalmente pela desaceleração do setor de serviços, que representa cerca de 70% da atividade econômica do país.
Ainda assim, no acumulado do trimestre, a economia avançou pouco mais de 1%, mostrando que o Brasil segue crescendo, mas em um ritmo menos intenso.
Para o mercado, a leitura é ambígua. De um lado, uma atividade mais fraca poderia aliviar a pressão sobre a inflação e abrir espaço para juros menores no futuro. De outro, o Boletim Focus trouxe uma leve piora das expectativas inflacionárias e elevou a projeção da Selic no fim deste ano para 13,25%, mostrando que o mercado continua desconfiado da capacidade do Banco Central de convergir a inflação para a meta.
A economia dá sinais de desaceleração, mas a inflação ainda incomoda. Isso mantém o Banco Central em modo de cautela e reforça o cenário de juros elevados por mais tempo.
Yihao Lin, economista da Genial Investimentos
Em março, o IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central) registrou contração de 0,67% m/m, vindo pior do que o esperado pelo consenso de mercado (-0,30% m/m, Broadcast+), porém mais em linha com a nossa expectativa para o mês de contração de 0,50% m/m.
Com este resultado, o indicador interrompe uma sequência de dois avanços consecutivos registrados nos meses imediatamente anteriores, período no qual atingiu o nível mais elevado já registrado em sua série histórica, indicando que, apesar do recuo em março, a economia se recuperou em relação ao final do ano passado neste primeiro trimestre de 2026.
Contudo, dada a expectativa de que a política monetária permaneça contracionista ao longo dos próximos meses, avaliamos que a economia deve retomar uma trajetória de arrefecimento gradual, refletindo o esgotamento dos efeitos das políticas de impulso à demanda que se mostram mais concentradas no primeiro trimestre de 2026.
Na comparação interanual, o indicador registrou expansão de 3,1% a/a, vindo ligeiramente melhor do que o esperado pelo consenso de mercado (3,0% a/a, Broadcast+) e um pouco abaixo da nossa projeção para o mês de avanço de 3,2% a/a.
Os dados divulgados hoje pelo Banco Central apontam para uma perda de fôlego bastante disseminada entre todos os segmentos analisados, divergindo das leituras setoriais mais recentes divulgadas pelo IBGE (indústria, serviços e varejo) que apontam para um quadro misto em março de 2026. Apesar da frustração na leitura de março do IBC-Br, as informações em conjunto confirmam que a economia brasileira se recuperou em relação à estagnação observada ao longo do segundo semestre de 2025, sobretudo nos segmentos mais sensíveis ao ciclo de aperto monetário.
Contudo, cabe destacar que o desempenho menos positivo observado em março reforça a necessidade de cautela à frente devido ao cenário macroeconômico que se mostra mais adverso por conta do impasse no Oriente Médio. Nesse sentido, entendemos que os dados de hoje seguem consistentes com a nossa expectativa de que a economia passe por um processo de arrefecimento bastante gradual ao longo dos próximos trimestres.
Essa dinâmica reflete, em nossa avaliação, o descasamento entre as políticas fiscal e monetária, em um ambiente ainda marcado por um mercado de trabalho aquecido. Além disso, o ciclo eleitoral de 2026 deve funcionar como um vetor adicional de sustentação da atividade, por meio da expansão dos gastos do governo federal e dos entes subnacionais.
Os dados de atividade de março ainda são consistentes com a continuidade do ciclo de afrouxamento monetário, contudo demandam uma certa cautela devido à deterioração da dinâmica inflacionária de curto prazo e da desancoragem das expectativas para inflação. Além disso, a indefinição do conflito no Oriente Médio impõe riscos adicionais para o atingimento da meta de inflação ao longo dos próximos trimestres.
Nesse contexto, mantemos nossa projeção de que o BC dará sequência ao ciclo de cortes na reunião de junho, com redução novamente de 0,25 p.p. na taxa Selic, para 14,25% a.a. Ao longo do restante do ano, seguimos esperando que afrouxamentos ocorram em todas as reuniões, levando a taxa para 13,25% a.a. ao final de 2026. Ainda assim, diante dos movimentos mais recentes de desancoragem das expectativas de inflação, sobretudo para 2028, avaliamos que há viés altista para essa trajetória.
Pelo lado da atividade, os dados divulgados hoje impõem um viés baixista para a nossa estimativa de recuperação de crescimento no primeiro trimestre, atualmente de 1,1% t/t. Porém, avaliamos que os dados seguem consistentes com a nossa projeção de crescimento de 2,0% em 2026.
Houve revisões nos dados dos meses anteriores. O IBC-Br de janeiro saiu de 0,86% m/m para 0,79% m/m e o de fevereiro de 0,60% m/m para 0,87% m/m. Com o resultado de março e as revisões na série histórica, a média móvel trimestral do IBC-Br saiu de 0,55% para 0,32% na passagem de fevereiro para março, interrompendo uma sequência de quatro leituras consecutivas de aceleração dessa métrica, refletindo o arrefecimento tanto da agropecuária (de 0,78% para -0,05%) quanto do componente ex-agropecuária (de 0,54% para 0,27%).
Na comparação trimestral, o IBC-Br registrou avanço de 1,3% t/t em relação ao último trimestre de 2025, tendo como destaque o avanço de 1,2% t/t do componente ex-agro e se recuperou em relação de 0,3% t/t observados na passagem do 3T25 para o 4T25. Com o resultado de hoje, o indicador deixa um carrego estatístico de -0,2% para o 2T26 e de 1,1% para o ano cheio.