Inteligência artificial já é infraestrutura no mercado de construção civil

Construção Civil Inteligência Artificial

Por Rafael Rebouças, fundador e COO da Invisto

A inteligência artificial chegou à construção civil não como uma tendência, mas como uma infraestrutura invisível.

Na LUIH, construtora do grupo Invisto nos Estados Unidos, essa transformação não é um experimento: ela está integrada desde a escolha do terreno até as decisões finais de projeto e execução. Em um setor no qual o custo do erro é elevado e o retrabalho compromete valor, antecipar decisões deixou de ser diferencial, passou a ser requisito.

Por décadas, a construção civil no Brasil foi tratada como um setor intensivo em mão de obra e pouco tecnológico. Projetos, obras e acabamentos dependiam majoritariamente de experiência acumulada, repetição e correções ao longo do caminho. O processo decisório permanecia concentrado no canteiro, muitas vezes reagindo a problemas à medida que eles surgiam.

Esse modelo começou a mudar com a incorporação de tecnologias como BIM (Building Information Modeling), simulações tridimensionais, monitoramento remoto e análise de dados. Mais recentemente, a inteligência artificial levou essa transformação a um novo patamar. Diferentemente das tecnologias anteriores, a IA desloca decisões críticas da execução para a fase de concepção, onde o impacto das escolhas é maior e o custo do erro, significativamente menor.

A partir de 2023, esse movimento ganhou tração. Modelos de inteligência artificial evoluíram em capacidade, confiabilidade e acessibilidade, passando a apoiar decisões reais em setores como finanças, saúde, logística, energia e indústria. Na construção civil, esse avanço é particularmente relevante porque projetos físicos não admitem reversão simples. Cada ajuste tardio implica custos adicionais, perda de eficiência e impactos estéticos e ambientais.

Esse deslocamento decisório se torna ainda mais evidente nos mercados de construção voltados à alta e altíssima renda. São projetos de elevada complexidade arquitetônica, alto rigor de design e margem mínima para improviso. Nesse contexto, a tecnologia deixa de atuar como suporte operacional e passa a integrar o núcleo do processo decisório, com foco em antecipação de riscos, redução de retrabalho e preservação da integridade do projeto.

Estudos internacionais reforçam essa lógica. Análises do World Economic Forum indicam que até 80% dos custos e impactos ambientais de um empreendimento são definidos ainda na fase de projeto. É nesse estágio que a inteligência artificial gera mais valor: ao integrar dados urbanos, restrições regulatórias, custos construtivos, prazos e condicionantes técnicos, torna-se possível testar cenários, comparar soluções e qualificar escolhas antes do início da obra.

Essa capacidade de antecipação é crítica em um setor historicamente marcado por atrasos. Mais de 50% dos atrasos de uma obra acontecem antes mesmo do primeiro dia de execução, ainda na fase de planejamento, aprovação e definição técnica. A inteligência artificial permite simular futuros possíveis, identificar gargalos e conflitos de projeto e ajustar decisões no ambiente digital, evitando atrasos, custos adicionais e retrabalho no mundo real.

Nos Estados Unidos, mercado no qual atuamos, essa abordagem já nasce integrada ao desenvolvimento imobiliário de alta renda. Um levantamento da McKinsey aponta que a aplicação estruturada de tecnologias digitais e análise avançada pode reduzir os custos totais de construção entre 10% e 20%, além de diminuir retrabalho e desperdício de materiais, mesmo em um setor que já apresenta maior grau de padronização e industrialização.

Essa lógica se estende também ao design de interiores, que deixa de ocupar um papel secundário e passa a integrar a estratégia do desenvolvimento desde o início. Ferramentas baseadas em inteligência artificial permitem avaliar layout, iluminação, materiais e fluxos ainda na fase conceitual. Em ativos de altíssima renda, nos quais o nível de personalização é elevado, antecipar essas decisões preserva coerência estética, reduz ajustes tardios e evita intervenções custosas durante a execução.

Do ponto de vista ambiental, a relação é direta. Projetos mais bem definidos, da estrutura aos interiores, exigem menos correções, menor transporte de insumos, menor consumo energético e menos descarte ao longo da obra. A redução das emissões de gases de efeito estufa decorre de eficiência operacional e rigor técnico, não de discurso.

Outro vetor central dessa transformação é a padronização inteligente dos processos. A inteligência artificial permite transformar aprendizados acumulados em sistemas replicáveis, mantendo sofisticação arquitetônica e padrão construtivo, ao mesmo tempo em que reduz variabilidade e incerteza. Para investidores de alta renda, previsibilidade e governança têm peso equivalente ao retorno.

Na LUIH, essa transformação se materializa de forma prática. A inteligência artificial atua como uma infraestrutura silenciosa: organiza dados, qualifica decisões e reduz incertezas antes que elas se tornem custo. O objetivo não é automatizar escolhas criativas, mas criar as condições para que decisões arquitetônicas, técnicas e financeiras sejam tomadas com maior rigor, consistência e previsibilidade.

Para a Invisto, que estrutura investimentos em ativos imobiliários de alta qualidade, esse modelo é central. Governança, previsibilidade e preservação de valor não são efeitos colaterais da tecnologia, são a razão de sua adoção. Em um setor historicamente reativo, antecipar deixou de ser inovação. Passou a ser a base para construir ativos consistentes, eficientes e preparados para atravessar ciclos.