Enquanto o vestibular tradicional e o ENEM seguem como principal porta de entrada para o ensino superior no Brasil, um caminho alternativo vem ganhando espaço de forma silenciosa: o reconhecimento do desempenho em olimpíadas do conhecimento como critério de acesso a universidades. Competições acadêmicas em áreas como matemática, ciências, tecnologia e linguagens já fazem parte de políticas de ingresso, bônus ou seleção diferenciada em instituições nacionais e internacionais.
A prática, comum em sistemas educacionais mais flexíveis, começa a se consolidar também no Brasil, especialmente em programas que buscam identificar talentos acadêmicos desde a educação básica. O desempenho consistente em olimpíadas científicas tem sido interpretado por universidades como um indicador de domínio de conteúdo, pensamento crítico e maturidade intelectual.
Apesar desse movimento, a maior parte das famílias ainda desconhece que medalhas e rankings em competições acadêmicas podem ter impacto direto no acesso ao ensino superior. Para muitos estudantes, as olimpíadas seguem vistas apenas como atividades extracurriculares, sem relação com o futuro universitário.
“O que pouca gente sabe é que essas competições constroem um histórico acadêmico sólido, que já é considerado por universidades no Brasil e, sobretudo, no exterior”, explica Clarissa Vergara, professora e diretora do Clube Amplexo Educação e do Medalhei Olimpíadas Científicas.
O Amplexo Educação atua como um espaço de aprendizagem voltado ao estímulo da autonomia intelectual, do pensamento crítico e da ampliação do repertório acadêmico de crianças e adolescentes. O projeto desenvolve aulas diversificadas, encontros temáticos e preparação para olimpíadas do conhecimento nacionais e internacionais, com foco na valorização das singularidades de cada estudante.
Nesse contexto, o clube acompanha alunos que constroem trajetórias acadêmicas consistentes desde cedo, com participação contínua em olimpíadas científicas de alto nível. Os resultados obtidos nessas competições passam a integrar o currículo acadêmico dos estudantes e podem ser considerados em processos seletivos diferenciados ao longo da vida escolar.
Um dos exemplos é o de Miguel Rosa dos Santos, de 10 anos, aluno do Amplexo Educação, que já conquistou 192 medalhas em olimpíadas científicas nacionais e internacionais, estabelecendo um recorde brasileiro. Autista com altas habilidades, Miguel participa de competições em áreas como matemática, física, astronomia, ciências e lógica, com acompanhamento pedagógico contínuo e um percurso acadêmico construído desde muito cedo.
Em 2026, Miguel participou da etapa internacional da Olimpíada Copernicus Global Round, em Houston, nos Estados Unidos, onde foi o único estudante autista da competição e também a única criança a disputar duas categorias diferentes. Ele conquistou medalha de ouro em Ciências (grade 5/6) e medalha de bronze em Física e Astronomia (grade 7/8), competindo com estudantes mais velhos de diversos países.
Para a mãe de Miguel, Josiane Luzia dos Santos Carvalho, as olimpíadas nunca foram apenas sobre resultados. “Para nós, as olimpíadas nunca foram apenas sobre medalhas, embora hoje o Miguel já tenha conquistado 192 medalhas em competições científicas nacionais e internacionais. Cada uma representa aprendizado e, principalmente, amor pelo conhecimento”, afirma.
Segundo ela, o ambiente educacional foi determinante para transformar potencial em trajetória. “Como mãe de uma criança autista com altas habilidades, sempre soube que ele precisaria de um espaço que respeitasse sua singularidade e, ao mesmo tempo, desafiasse sua capacidade intelectual. A Amplexo Educação teve papel essencial nessa trajetória. O Miguel encontrou não apenas preparação acadêmica, mas pertencimento, estímulo à autonomia e valorização do seu jeito único de aprender”, destaca.
Josiane reforça que o impacto das olimpíadas vai além do currículo acadêmico. “As olimpíadas deram profundidade e propósito ao aprendizado, mas foi o olhar cuidadoso da Clarissa que ajudou a transformar potencial em um percurso consistente. Mais do que resultados, esse caminho fortaleceu o Miguel como pessoa, ensinando-o a enfrentar desafios, lidar com frustrações e persistir em objetivos de longo prazo”, completa.
Outro caso é o de Augusto de Paula Bezerra, de 8 anos, também aluno do Amplexo Educação, medalhista de bronze na Olimpíada Internacional de Ciências Copernicus Global Round 2026, realizada em Houston, nos Estados Unidos. O estudante foi o participante mais jovem de sua categoria e competiu com alunos de diversos países após se classificar entre os melhores do Brasil na etapa online.
Para a mãe de Augusto, Vaneuda Almeida de Paula, a experiência com as olimpíadas científicas representou uma virada profunda na trajetória do filho. “As olimpíadas científicas foram um divisor de águas na vida do meu filho. Ele chegou ao Amplexo em 2025, após três anos de muito sofrimento escolar, baixa autoestima e um profundo sentimento de não pertencimento. O universo das olimpíadas foi o ‘abraço’ que ele precisava: ali, ele encontrou seus pares e percebeu que seus interesses também eram valorizados. Ver o progresso dele a cada prova foi gratificante, mas o maior prêmio não foi nenhuma medalha; foi ver meu filho feliz, tranquilo e, finalmente, sentindo-se à vontade para ser quem ele realmente é”, afirma.
Para Clarissa, esses exemplos ajudam a ilustrar como o investimento em projetos acadêmicos de longo prazo pode ampliar as possibilidades de acesso ao ensino superior. “Não se trata de substituir o vestibular ou o ENEM, mas de complementar esses caminhos, oferecendo às universidades uma visão mais ampla do potencial do estudante”, afirma.
No exterior, universidades já utilizam há anos o desempenho em olimpíadas internacionais como parte do processo de admissão, especialmente em cursos das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. No Brasil, esse modelo avança de forma gradual, por meio de bônus, vagas olímpicas ou programas específicos de reconhecimento acadêmico.
Além do impacto no ingresso universitário, a participação em olimpíadas do conhecimento contribui para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, como resiliência, foco, autonomia intelectual e capacidade de investigação, competências cada vez mais valorizadas no ambiente acadêmico.
“O aluno que participa de olimpíadas aprende a lidar com desafios reais, frustrações e persistência. Esse repertório não aparece em uma prova tradicional, mas faz toda a diferença na vida universitária”, destaca Clarissa.
A tendência reforça uma mudança no olhar sobre a educação, que passa a valorizar o percurso formativo construído ao longo da infância e da adolescência. Projetos, competições e experiências acadêmicas contínuas ganham peso na formação do estudante e ampliam suas possibilidades futuras.
Em um cenário de transformação do ensino superior, as olimpíadas do conhecimento deixam de ser apenas competições e passam a integrar uma estratégia mais ampla de acesso à universidade, conectando talento, curiosidade e formação acadêmica desde cedo.
“Quando olhamos para o acesso à universidade apenas por uma prova, deixamos de enxergar trajetórias inteiras de dedicação, curiosidade e construção do conhecimento. As olimpíadas mostram que o talento pode ser desenvolvido ao longo do tempo, com acompanhamento, estímulo e propósito. Reconhecer esse percurso é dar ao estudante a chance de chegar mais longe sendo quem ele é”, conclui Clarissa.