Por Renato Polizzi, sócio da One Partners
Novos ares se aproximam do mercado brasileiro. Ares mais limpos e silenciosos. A economia circular tem, cada vez mais, se estabelecido como um importante motor de crescimento, democratização do acesso e geração de riqueza. Associada à disseminação, pelo País afora, de motocicletas elétricas, ela, a economia circular, cria promissores e “descarbonizados” modelos de negócios, com benefícios para todos.
O Brasil possui, hoje, uma frota de mais de 35 milhões de motocicletas (somadas as elétricas e as a combustão), produzindo a cada ano mais aproximadamente 1,8 milhão de novas motos. Esse contingente faz parte de uma frota total de veículos de mais de 125 milhões de unidades.
A Economia circular da mobilidade urbana
O aluguel (seja via varejo ou via frota) de carros, utilitários e veículos pesados já é algo estabelecido e com escala há bastante tempo no mercado brasileiro. Facilmente nos lembramos de grandes locadoras de carros de passeio, por exemplo. Se faltava algo semelhante para os “colegas de duas rodas” que, afinal, respondem por cerca de um quarto do total de veículos do País, não falta mais: recentemente temos visto o surgimento de locadoras de motocicletas, focando no amplo mercado de entregas e mobilidade urbana. Mais recentemente ainda (e nesse ponto reside a grande revolução!) surgiram empresas focadas em aluguel de motocicletas elétricas.
E o que há de revolucionário nisso? Alguns pontos: estudos indicam que motos a combustão podem poluir até 15 vezes mais que um carro popular; o barulho produzido por essas motos também é outra forma de poluição; motos elétricas já “nascem digitais” e permitem maior conectividade e coleta de dados. Não são apenas negócios de aluguel de ativos, é muito mais do que isto!
Uso de dados para promover impacto social positivo
E por que isso é importante? Enquanto descarbonizar e reduzir a poluição sonora são elementos mais fáceis de serem observados, acredita-se que o grande potencial esteja na digitalização e coleta de dados: imagine um cenário em que um aplicativo sabe quanto o motociclista andou na contramão, furou sinal, excedeu a velocidade máxima, por exemplo. Imagine, ainda mais, se, de posse desses dados, a locadora chamar seus clientes motociclistas mais “rebeldes” para um curso de conscientização e aprendizado? Quem sabe seja o início da redução da triste estatística de 5 motociclistas mortos por dia apenas no estado de São Paulo em 2025, um pouco menos da metade do total dos óbitos no trânsito no Estado.
Um novo modelo de negócios
Não surpreende, portanto, que já estejamos começando a ver motos elétricas alugadas andando pelas ruas. Até porque, uma empresa de aluguel resolve alguns dos desafios de um mercado estabelecido recentemente:
– Mercado secundário: o entregador, o motoqueiro não vão investir em um ativo caro (a moto) se não souberem que conseguem vender esse mesmo ativo depois de algum tempo. Ao alugar, essa necessidade desaparece;
– Recarga de baterias: diferentemente dos carros, as motos elétricas têm autonomias menores, algumas, com poucas dezenas de quilômetros – entre 80 e 200 quilômetros, dependendo do modelo e da forma de condução. Em uma cidade como São Paulo, isso não é muito. Porém, algumas dessas empresas já oferecem estações de recargas: trata-se de um “armário” eletrificado que carrega e armazena as baterias. Espalhados pelas cidades, basta que o motociclista vá a um deles, coloque a bateria que está usando no compartimento vazio e retire, de outro compartimento, uma bateria já recarregada. A operação toda leva menos de um minuto (mais rápido que encher um tanque de combustível) e é oferecida como parte do pacote de aluguel;
– Uso de energia 100% renovável: ao oferecerem a troca de bateria usada por recarregada (nas estações de recarga), as empresas podem garantir que a bateria foi recarregada usando-se apenas fontes renováveis.
E, começando desta forma, o mercado se desenvolve. Com o tempo surgem um mercado secundário, baterias com maior autonomia e motociclistas mais conscientes das regras de trânsito e da própria segurança. Enfim, um novo modelo. Sim, é possível.
As motos já “não deixam o Brasil parar”; o transporte de documentos, alimentos e pessoas em cidades grandes brasileiras é, hoje, impraticável sem uma moto, como aliás o tamanho da frota já indica. Será que é muito sonhar que a nossa economia vai circular em duas rodas silenciosas, descarbonizadas e socialmente responsáveis?