Copom reduz taxa Selic para 14% em agosto

Economia


Comitê destaca como pontos de atenção a indefinição dos conflitos armados no exterior e cenário doméstico com inflação acima do limite superior da meta

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu reduzir a taxa básica de juros para 14 % a.a., dando sequência ao ciclo de calibração da política monetária.

Em sua decisão, o Copom reforça a permanência de um ambiente externo instável em função da indefinição acerca dos conflitos armados no Oriente Médio e da incerteza sobre a política monetária em algumas economias avançadas. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.

Em relação ao cenário doméstico, o comitê destacou que o conjunto dos indicadores divulgados desde a última reunião sugere uma moderação gradual da atividade econômica, embora ainda em patamar resiliente, com sinais mistos entre setores, e mercado de trabalho aquecido. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia desacelerou, porém ainda acima do limite superior da meta, enquanto as medidas subjacentes desaceleraram para patamar ligeiramente abaixo do limite superior da meta.

Abaixo, seguem comentários de especialistas a respeito da decisão:

Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD

O Copom fez exatamente o que o mercado esperava e reduziu a Selic para 14% ao ano. A boa notícia é que o Banco Central reconhece uma desaceleração da inflação e da atividade econômica. A má notícia é que ele continua bastante preocupado com as expectativas de inflação e com o risco fiscal. O comunicado retirou trechos que davam mais abertura para a continuidade dos cortes e reforçou que as próximas decisões dependerão dos dados. Na prática, o Banco Central deixou a porta aberta para um novo corte, mas não quis se comprometer. Agora, o mercado vai acompanhar de perto a evolução da inflação, do cenário fiscal e da atividade para entender se haverá espaço para mais uma redução da Selic em setembro.

Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos

Conforme esperado, o Copom reduziu a taxa Selic em 0,25 p.p, para 14,00%. No comunicado pós reunião, a autoridade monetária reconhece a assimetria altista no seu balanço de riscos para a inflação. A projeção no seu modelo de referência para o horizonte relevante ficou em 3,2%, acima da meta de 3,0%. Um ponto de destaque no comunicado é a desancoragem adicional das expectativas de inflação mais longas, o que, segundo o BC, aumenta o custo da desinflação. Olhando o cenário à frente, entendemos que o texto deixa espaço para mais cortes, contudo sem se comprometer em dar um “guidance”. Esperaremos a ata para termos maior clareza sobre o que foi discutido e melhor balizarmos o nosso cenário. Mas, a princípio, acreditamos que o BC deverá cortar mais uma vez a taxa básica em 0,25 p.p para 13,75%.


Fabiano Guerra, CEO da Alumni Investimentos

A Selic segue em patamar ainda elevado e a inflação continua pressionada, com o IPCA acumulado em 4,64% em 12 meses e o mercado já projetando 5,03% para este ano, acima da meta do BC. Isso mantém o custo do dinheiro alto e o ambiente seletivo. Para as empresas endividadas e com pouca liquidez, o desafio continua sendo rolar passivos, reorganizar o caixa e preservar valor.

FIEMG: corte da Selic para 14% é positivo, mas juros seguem elevados para impulsionar a indústria

A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) considera positiva a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de reduzir a taxa Selic para 14,00% ao ano. No entanto, a entidade avalia que o corte ainda é insuficiente para mitigar os impactos prolongados dos juros elevados sobre a atividade produtiva, os investimentos e a geração de empregos. Para a FIEMG, a manutenção da taxa básica de juros em patamar elevado continua restringindo o acesso ao crédito, desestimulando novos investimentos e comprometendo a competitividade da indústria brasileira. “A estabilidade de preços é indispensável para o crescimento sustentável da economia. O processo precisa ocorrer com menor custo para a produção, os investimentos e o emprego, o que exige maior coordenação entre as políticas monetária e fiscal”, afirma economista-chefe da FIEMG, João Gabriel Pio. Segundo a Federação, a decisão do Copom reflete um cenário em que ainda persistem pressões inflacionárias, sobretudo no setor de serviços, além de um mercado de trabalho aquecido e incertezas em relação ao quadro fiscal. Na avaliação da entidade, o caráter expansionista da política fiscal e a ampliação de programas de crédito subsidiado, quando não acompanhados de um compromisso com o equilíbrio das contas públicas, reduzem a eficácia da política monetária e tornam o processo de controle da inflação mais custoso para a economia. “Um ciclo mais consistente de queda dos juros depende de um ambiente macroeconômico mais equilibrado, com responsabilidade fiscal, previsibilidade e maior efetividade da política monetária. Esse conjunto de fatores amplia a confiança, favorece o investimento produtivo e fortalece a competitividade da indústria”, destaca o economista. A FIEMG reforça que a indústria precisa de um ambiente econômico estável, com inflação sob controle, juros em trajetória sustentável de redução e condições favoráveis ao investimento. Para a entidade, esse é o caminho para estimular a expansão da capacidade produtiva, elevar a produtividade e promover um crescimento econômico mais robusto e duradouro.

Roberto Dumas – estrategista-chefe da GCB Investimentos

Uma coisa de que eu não gostei foi a forma como o comunicado tratou o IPCA-15. Ele afirma que o índice desacelerou, o que é verdade, e lembra que a inflação ainda está acima do teto da meta, também é verdade. Só que, com a continuidade da guerra, esse IPCA pode voltar a acelerar. Para 2026, praticamente não há mais nada que a política monetária possa fazer. A expectativa de inflação está em torno de 5%. Para 2027, também há pouco espaço de atuação, com a projeção em 4,2%. A decisão, portanto, foi baseada no horizonte relevante da política monetária, que hoje é o primeiro trimestre de 2028, quando a inflação projetada está em 3,2%. Mas há um ponto que dificulta a sinalização de novos cortes. O comunicado reforça uma assimetria altista no balanço de riscos, ou seja, existem mais fatores que podem elevar a inflação do que reduzi-la. Entre esses fatores estão a desancoragem das expectativas de inflação, principalmente por causa dos choques de oferta decorrentes da guerra, e um hiato do produto positivo, indicando que o PIB efetivo está acima do PIB potencial.

José Márcio Camargo – Economista-chefe da Genial Investimentos

O comunicado que se seguiu foi muito mais claro do que o da última reunião e chama atenção para uma moderação da atividade econômica. O mercado de trabalho continua aquecido, mas a política monetária bastante contracionista parece ter começado a produzir efeitos nos últimos meses. Os dados já começam a mostrar uma certa desaceleração da economia. Um ponto importante é a preocupação com as expectativas de inflação, que continuam desancoradas e podem trazer dificuldades para o controle da inflação. Por fim, o comunicado foi bastante claro ao afirmar que a magnitude do ciclo de cortes dependerá da evolução dos dados. Isso significa que os próximos passos da política monetária permanecem totalmente em aberto.