A autonomia financeira não pode ser delegada

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Por Anna Zarzur, conselheira de empresas, fundadora do Grupo Wood e acionista da Eztec

Durante muito tempo, falar sobre autonomia feminina significou discutir acesso à educação, ao mercado de trabalho e aos espaços de liderança. Essas conquistas continuam essenciais, mas existe uma dimensão da independência que ainda recebe menos atenção do que deveria: a capacidade de compreender e participar das decisões sobre o próprio dinheiro.

A 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, divulgada em 2026 pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), em parceria com o Datafolha, mostra que 31% das brasileiras são investidoras, diante de 41% dos homens. O dado mais preocupante, porém, é outro: 69% das mulheres desconhecem ou não utilizam aplicações financeiras. Entre os homens, o percentual é de 53%.

Esses números revelam uma desigualdade que não se limita ao acesso a produtos financeiros. Existe também uma distância em relação ao conhecimento necessário para avaliar riscos, questionar orientações e participar das decisões que envolvem patrimônio e futuro.

Muitas mulheres trabalham, geram renda e contribuem para a construção patrimonial da família, mas continuam delegando integralmente a administração dos recursos. Em alguns casos, porque alguém sempre assumiu essa função. Em outros, porque a rotina formada por carreira, maternidade e responsabilidades familiares não deixa espaço para mais uma frente de aprendizado.

Delegar determinadas tarefas faz parte da vida e pode ser uma escolha eficiente. O problema começa quando a delegação acontece sem compreensão. É possível contar com um gestor, um banco ou um familiar para cuidar dos investimentos, mas nenhuma mulher deveria se afastar das perguntas que orientam essas decisões. Onde estão os recursos? Quais riscos estão sendo assumidos? Qual é o planejamento para o futuro? O que aconteceria diante de uma separação, de uma perda familiar ou de uma mudança inesperada na renda?

Educação financeira não significa transformar todas as mulheres em especialistas. Significa oferecer condições para que elas compreendam o suficiente para decidir, acompanhar e questionar. Quem não domina os conceitos mais básicos fica mais vulnerável, inclusive quando possui renda e patrimônio.

Essa discussão também precisa superar a ideia de que investir é um assunto reservado a quem tem muito dinheiro. O conhecimento financeiro começa antes da primeira aplicação. Ele está na compreensão dos juros, na organização do orçamento, na formação de uma reserva e na capacidade de distinguir consumo, dívida e construção de patrimônio.

Naturalmente, os pontos de partida são diferentes. Renda, tempo disponível e acesso à informação interferem nesse percurso. Reconhecer essas desigualdades, porém, não pode significar aceitar que parte das mulheres permaneça distante das decisões financeiras durante toda a vida.

Tenho encontrado nesse tema uma bandeira pessoal e organizado cursos cada vez mais frequentes para mulheres. A experiência tem reforçado uma percepção: muitas não precisam de discursos complexos, mas de um ambiente no qual possam fazer perguntas básicas sem se sentirem inadequadas.

Mudar esse cenário exige que instituições, empresas, famílias e pessoas dispostas a compartilhar conhecimento assumam sua parte. Quanto mais mulheres compreenderem o próprio dinheiro, menor será a dependência nas decisões que definem seu presente e seu futuro. Os números ainda mostram uma distância importante, mas não são imutáveis.