Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios ampliaram seu alcance entre os investidores enquanto consolidavam um patrimônio líquido próximo de R$ 1 trilhão. Nos 12 meses encerrados em novembro de 2025, o número de contas vinculadas à classe saltou de 147,3 mil para 333,7 mil, uma expansão de 126,5%, enquanto o patrimônio dos fundos avançou 22,5%. O número de classes de FIDCs também passou de 3 mil para 3,8 mil, e as ofertas captaram R$ 90,1 bilhões no período. A capacidade de atrair recursos voltou a aparecer em abril de 2026. Enquanto a indústria de fundos registrou saída líquida de R$ 18,1 bilhões, os FIDCs receberam R$ 4,5 bilhões, a maior captação líquida mensal entre as classes. Os números revelam uma mudança de escala em um mercado antes restrito a grandes investidores e operações mais especializadas.
O avanço ocorre mesmo com a Selic em 14% ao ano, patamar que eleva o custo financeiro das empresas e exige maior rigor na concessão de crédito. Nesse cenário, os FIDCs ganham espaço por financiar companhias a partir de recebíveis, como duplicatas, parcelas, contratos e vendas a prazo. A estrutura permite analisar cada operação conforme o prazo, a origem do crédito, a concentração da carteira e a capacidade de pagamento dos sacados. “O cenário atual não deve ser lido apenas como uma discussão sobre custo de crédito. O ponto central é que os FIDCs permitem estruturar operações com maior aderência ao ciclo financeiro das empresas, considerando a natureza do recebível, o comportamento da cadeia produtiva e a qualidade do risco envolvido”, afirma Pedro Da Matta, CEO da Audax Capital. O resultado é uma modalidade capaz de atender negócios cujos ciclos financeiros nem sempre se encaixam nas condições padronizadas do crédito bancário.
Essa flexibilidade torna-se especialmente relevante em setores como agronegócio, indústria e empresas de médio porte, nos quais o intervalo entre a produção, a venda e o recebimento pode pressionar o caixa. No agro, fatores como safra, logística, prazo de pagamento e exposição regional interferem diretamente na capacidade financeira das companhias. O recebível, nesse caso, deixa de representar apenas uma venda futura e passa a funcionar como fonte de capital para manter a operação em andamento. A expansão dos FIDCs, contudo, não elimina os riscos. O crescimento da classe aumenta a importância da diversificação dos sacados, da qualidade das garantias, da verificação dos créditos e do acompanhamento da inadimplência. A Audax Capital atua em operações ligadas ao agro, à indústria e ao crédito empresarial, segmentos nos quais o conhecimento da cadeia financiada pode ser tão importante quanto a avaliação financeira do tomador.
A queda gradual dos juros pode reduzir o custo de captação dos fundos e aliviar a pressão financeira sobre empresas e devedores, embora também diminua parte da rentabilidade nominal procurada pelos investidores. “Para o FIDC, juros baixos são melhores, pois temos menor risco e menor custo de passivo. Para o investidor quanto maior o juros, melhor, pensando em rentabilidade. No Centro-Oeste, especialmente em cadeias ligadas ao agro e à indústria, esse cuidado é ainda mais importante, porque há empresas convivendo com ciclos de caixa longos, pressão financeira e, em alguns casos, recuperação judicial. Mesmo nesse ambiente, uma carteira bem estruturada, com recebíveis sólidos e acompanhamento próximo, consegue preservar previsibilidade e financiar a economia real com segurança”, afirma Da Matta. Com a ampliação do mercado, a próxima etapa dos FIDCs dependerá menos do crescimento bruto da captação e mais da capacidade dos gestores de preservar a qualidade das carteiras em diferentes fases do ciclo econômico.