Desperdício de alimentos vira modelo de impacto social com 60 mil refeições por ano

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O contraste entre desperdício e insegurança alimentar abriu espaço para uma nova geração de soluções de impacto. Em 2022, o mundo desperdiçou 1,05 bilhão de toneladas de alimentos, o equivalente a quase 20% de toda a comida disponível aos consumidores. O prejuízo econômico associado às perdas e ao desperdício chega a cerca de US$ 1 trilhão por ano. No Brasil, embora os indicadores tenham melhorado, 18,9 milhões de domicílios, ou 24,2% dos lares, ainda conviviam com algum grau de insegurança alimentar em 2024. Ao mesmo tempo, o capital destinado a investimentos de impacto avança: os ativos sob gestão do setor cresceram a uma taxa média anual de 21% nos últimos 6 anos e avançaram mais 11% no último ano. É nesse encontro entre um problema social de grande escala e a busca por soluções mensuráveis que modelos de reaproveitamento de alimentos começam a ganhar uma dimensão também econômica.


Criado em 2022, o Comida sem Mesa saiu de uma iniciativa escolar para uma operação que hoje redistribui cerca de 100 quilos de alimentos por dia, ou 2 toneladas por mês, convertidos em aproximadamente 5 mil marmitas mensais. Mantido o ritmo atual, são 60 mil refeições por ano, em uma rede que conecta quatro escolas particulares a duas instituições sociais. Desde o início do projeto, a estimativa é de mais de 100 mil refeições distribuídas. À frente da iniciativa está Cristiano Chehin, de apenas 17 anos, fundador do Comida sem Mesa, que começou a estruturar o projeto ainda no ambiente escolar e hoje trabalha para ampliar sua escala. Para ele, o desafio está menos na criação de novos recursos e mais em organizar melhor aquilo que já existe. “Existe alimento próprio para consumo de um lado e existe demanda do outro. Quando conseguimos estruturar coleta, embalagem e entrega com previsibilidade, o excedente deixa de ser desperdício e passa a gerar valor social. O próximo passo é construir uma rede capaz de fazer isso em uma escala muito maior”, afirma.


A lógica aproxima o projeto de uma tendência dos negócios de impacto: criar processos replicáveis para resolver problemas sociais, em vez de depender exclusivamente de ações isoladas. A operação é dividida em três etapas: coleta do excedente próprio para consumo, organização das refeições por alunos e voluntários e entrega a instituições sociais próximas, e pode crescer com a entrada de novos doadores e parceiros. Empresas podem participar fornecendo alimentos, apoiando custos de transporte, embalagens e armazenamento, conectando novos integrantes à rede ou patrocinando a expansão para outros pontos de coleta e entrega. “Para escalar impacto não basta aumentar o número de doações. É preciso criar estrutura, medir resultados e construir parcerias de longo prazo. Quando uma empresa entra nessa rede, ela pode ajudar a transformar uma iniciativa local em uma solução que se reproduz em outros lugares sem perder eficiência e transparência”, diz Mariana Georgetti, co-fundadora do Comida sem Mesa.


A tendência é que o combate ao desperdício deixe de ocupar apenas o campo da filantropia e avance para as agendas de economia circular, investimento de impacto e estratégia empresarial. A própria legislação brasileira caminhou nessa direção com a Lei nº 15.224/2025, que instituiu a Política Nacional de Combate à Perda e ao Desperdício de Alimentos e criou o Selo Doador de Alimentos, ampliando a estrutura institucional para a formação de redes de doação. Para o Comida sem Mesa, o potencial está justamente na replicabilidade: ampliar escolas e estabelecimentos doadores, mapear novas instituições sociais e profissionalizar logística, armazenamento e medição de impacto. Se conseguir transformar essas conexões em uma rede permanente, o projeto pode demonstrar como uma estrutura relativamente simples consegue atacar simultaneamente desperdício, insegurança alimentar e responsabilidade ambiental, três frentes que tendem a ganhar cada vez mais espaço na estratégia de empresas e investidores.