Gravidez de Lauana Prado reacende debate sobre fertilização in vitro e planejamento reprodutivo no Brasil 

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O anúncio da gravidez da cantora Lauana Prado, concebida por meio da fertilização in vitro, trouxe novamente à pauta um tema que ainda gera dúvidas entre a população: as técnicas de reprodução assistida e suas indicações. Sem entrar em aspectos pessoais, o caso funciona como um gancho para ampliar o debate sobre fertilidade, planejamento reprodutivo e os avanços da medicina reprodutiva no Brasil.

De acordo com a AMCR (Associação Mulher Ciência e Reprodução), casos públicos ajudam a normalizar a discussão sobre infertilidade, uma condição comum que afeta homens e mulheres em diferentes fases da vida, além de estimular a busca por informação de qualidade e acompanhamento médico especializado.

“Quando figuras públicas falam sobre o tema, isso contribui para que a população compreenda que dificuldades para engravidar são mais frequentes do que se imagina. Quanto mais cedo esse assunto é discutido, maiores são as chances de as pessoas procurarem ajuda especializada no momento adequado”, afirma a médica especialista em reprodução assistida Profª Dra. Marise Samama, presidente da AMCR.

A fertilização in vitro é indicada principalmente quando existe dificuldade no encontro natural entre o óvulo e os espermatozoides. Entre as causas mais comuns estão alterações nas tubas uterinas provocadas por infecções ginecológicas prévias ou processos inflamatórios provocados por doenças como a endometriose, além de fatores masculinos que afetam a quantidade ou a qualidade dos espermatozoides.

“A fecundação natural depende de uma série de fatores. É necessário que as tubas uterinas estejam funcionais e que um número adequado de espermatozóides, com boa qualidade, consiga chegar até o óvulo. Quando esse encontro não acontece, a fertilização in vitro permite que ele ocorra em laboratório, reproduzindo o que a natureza faria no corpo”, explica a especialista.

Criada inicialmente como solução para casos de infertilidade de maior complexidade, a FIV hoje também faz parte do planejamento reprodutivo. O congelamento de óvulos e a criopreservação de sêmen têm sido cada vez mais utilizados por pessoas que desejam adiar a maternidade ou a paternidade.

“O planejamento reprodutivo está muito mais ligado à preservação da fertilidade. Congelar óvulos em idades mais jovens é, na prática, uma decisão da mulher no presente para si mesma no futuro, quando a qualidade reprodutiva pode não ser a mesma”, destaca a Dra. Marise.

No Brasil, podem recorrer às técnicas de reprodução assistida casais heterossexuais com dificuldade para engravidar após um ano de tentativas quando a mulher tem menos de 35 anos. A partir dessa idade, o período recomendado para iniciar a investigação médica é de seis meses de tentativas. Casais homoafetivos e mulheres que optam pela maternidade solo também podem recorrer aos tratamentos, sempre com indicação e acompanhamento especializado.

A idade, segundo a AMCR, segue sendo um dos fatores mais relevantes quando se fala em fertilidade feminina, mesmo com os avanços da medicina.

“A mulher nasce com todos os óvulos que terá ao longo da vida, e essa reserva vai diminuindo com o tempo. Além disso, fatores como estresse, alimentação inadequada, poluição, doenças crônicas, obesidade, sedentarismo, fumo, uso de álcool ou drogas e distúrbios do sono impactam a fertilidade e podem ter seus efeitos revertidos. Já cirurgias nos órgãos reprodutivos, tratamentos para câncer com quimioterapia ou radioterapia   podem  comprometer a fertilidade de forma irreversível, ressalta a médica.

Entre os principais mitos que ainda cercam a fertilização in vitro está a ideia de que a técnica vai contra a natureza. Segundo a especialista, o procedimento apenas reproduz em laboratório o mesmo processo biológico que ocorre naturalmente no organismo.

“A fertilização in vitro não cria nada artificial. Nós apenas auxiliamos o encontro do óvulo com o espermatozóide quando isso não consegue acontecer espontaneamente. É uma tentativa de imitar a natureza, e não de contrariá-la”, conclui a Dra. Marise Samama.