Uma análise de quase 20 mil avaliações empresariais realizadas por meio da Plataforma Valuation JK revela um retrato pouco visível do empreendedorismo brasileiro: a maior parte das empresas já superou a fase inicial, movimenta negócios avaliados em milhões de reais, mas ainda enfrenta dificuldades para se tornar atrativa a investidores, compradores ou operações de crédito mais estruturadas. Cerca de 69% das empresas avaliadas foram classificadas como negócios em desenvolvimento, enquanto apenas 17% chegaram ao estágio considerado atrativo para investidores e só 0,5% atingiu a categoria de negócio premium. A maior concentração aparece na faixa entre R$ 1 milhão e R$ 25 milhões, com destaque para empresas avaliadas entre R$ 10 milhões e R$ 25 milhões, justamente o universo que costuma despertar interesse de fundos regionais, compradores estratégicos e operações de fusões e aquisições de médio porte. O levantamento também mostra que 1.145 empresas declararam interesse em atrair investidores, 924 buscaram crédito e capital de giro, 759 demonstraram intenção de vender o negócio e quase 500 indicaram interesse em adquirir outras empresas.
Para João Kepler, CEO da Equity Group, os dados mostram que existe um mercado empresarial grande, ativo e ainda pouco preparado para acessar capital de maneira eficiente. “O Brasil tem milhares de empresas boas, com faturamento, carteira de clientes e história, mas que ainda não sabem se apresentar para o investidor. O investidor não compra apenas potencial. Ele compra previsibilidade, governança, números organizados e capacidade de execução. Quando 69% das empresas aparecem como negócios em desenvolvimento, o dado mostra que o problema não é falta de oportunidade, é falta de estrutura para transformar valor em liquidez”, afirma Kepler. Na avaliação dele, o valuation se tornou fundamental como ferramenta de gestão. Para muitos empresários, conhecer o valor do negócio revela gargalos que não aparecem no faturamento, como dependência excessiva do fundador, baixa previsibilidade de caixa, ausência de processos e fragilidade nas informações financeiras.
O levantamento também ajuda a dimensionar onde estão as principais dores das pequenas e médias empresas. Entre os objetivos declarados, 1.254 negócios apontaram a necessidade de aumentar margem de lucro e melhorar a eficiência do caixa, enquanto 881 buscaram otimizar o controle financeiro. Outros 429 empresários manifestaram interesse em implantar estruturas de governança, conselhos consultivos ou administrativos, e 372 procuraram orientação para proteger patrimônio pessoal e estruturar holdings patrimoniais, movimento comum em empresas familiares que começam a separar as finanças dos sócios das finanças da companhia. A sucessão aparece como um dos maiores pontos de atenção: embora estudos de mercado indiquem que a maior parte das empresas brasileiras tem origem familiar, apenas 297 avaliações indicaram busca ativa por preparação sucessória e alinhamento entre sócios. “A sucessão costuma ser lembrada tarde demais. Em uma empresa familiar, o valor não está só no produto ou no faturamento, mas na capacidade de atravessar gerações sem destruir a operação. Quando o empresário não organiza governança, sucessão e indicadores, ele reduz o valor do próprio negócio antes mesmo de negociar com alguém”, analisa Kepler.
A distribuição setorial reforça a força da economia real na base analisada. Varejo, Franquias e D2C lideram as avaliações, com 16,6% da amostra, seguidos por Serviços Profissionais e Contabilidade, com 15,5%, Indústria e Manufatura, com 15%, Tecnologia e SaaS, com 10,1%, e Saúde e HealthTech, com 9,7%. No recorte regional, São Paulo concentra cerca de 31% dos registros, seguido por Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Bahia, mostrando a força do eixo Sul-Sudeste e o avanço da cultura de valuation em outras regiões. O dado sobre compra e venda de negócios também chama atenção: 759 empresas indicaram interesse em vender e quase 500 querem comprar, sinalizando um mercado de M&A represado entre PMEs. Para Kepler, esse movimento deve crescer à medida que empresários passem a tratar valuation como rotina de gestão, e não como evento isolado. “O empresário brasileiro acompanhou por muito tempo faturamento, caixa e imposto. Agora começa a entender que precisa acompanhar valor. Uma empresa pode vender muito e valer pouco se não tiver margem, governança, previsibilidade e baixa dependência do fundador. Da mesma forma, um negócio menor pode valer mais quando tem processos claros, recorrência e gestão profissionalizada”, afirma.