Brasil chega a 122,8 milhões de pessoas com crédito ativo, mas inadimplência avança na primeira metade da década

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Estudo apresentado na Febraban Tech 2026 mostra expansão do acesso ao crédito entre 2021 e 2025, acompanhada por aumento do número de inadimplentes e maior pressão sobre a renda das famílias.

O mercado de crédito brasileiro passou por uma forte expansão na primeira metade desta década. Entre 2021 e 2025, o número de pessoas com crédito ativo passou de 96,8 milhões para 122,8 milhões. No mesmo período, o saldo dos contratos de crédito alcançou aproximadamente R$ 4,47 trilhões.

Os números fazem parte do estudo “O Começo de uma Década”, realizado pela Equifax BoaVista em parceria com Acordo Certo e CDL Porto Alegre, apresentado na Febraban Tech 2026. O levantamento traça um panorama das transformações ocorridas no mercado financeiro brasileiro nos últimos cinco anos, incluindo acesso ao crédito, inadimplência, comprometimento de renda e percepção dos consumidores sobre sua situação financeira.

A expansão também aparece na quantidade de relações mantidas entre consumidores e instituições credoras. Em 2025, eram 396,7 milhões de relacionamentos de crédito, indicando não apenas a entrada de mais brasileiros nesse mercado, mas também uma maior utilização de produtos financeiros.

Consumidor percebe maior facilidade para conseguir crédito

A transformação do mercado também é percebida pelos brasileiros. Segundo a pesquisa, 49,1% dos entrevistados consideram que ficou mais fácil conseguir aprovação de crédito nos últimos cinco anos.

Quase metade, 48,8%, afirma ainda que sua vida financeira está melhor do que no início da década. Entre aqueles que perceberam uma evolução, 32,3% apontam o aumento do poder de compra como um dos principais sinais dessa melhora, enquanto 30% destacam não possuir dívidas acumuladas e 17,5% mencionam a possibilidade de guardar dinheiro.

Para Henrique Moraes, CEO da Equifax BoaVista, os últimos cinco anos foram marcados por mudanças que vão além da expansão dos volumes concedidos.

“A primeira metade desta década transformou profundamente a relação dos brasileiros com o mercado financeiro. A digitalização acelerou, novos modelos de negócio ampliaram a competição e o acesso ao crédito, e tecnologias que já vinham sendo desenvolvidas há anos, como inteligência artificial e machine learning, passaram a ocupar um espaço cada vez maior nas decisões financeiras”, afirma.

Segundo o executivo, os avanços também trouxeram novos desafios. “Para a próxima metade da década, precisamos continuar evoluindo para que inovação, dados e tecnologia contribuam para estratégias de crédito mais precisas, justas e sustentáveis, com impacto positivo para as pessoas e para a economia.”

Inadimplência cresce junto com expansão do mercado

O maior acesso ao crédito, entretanto, foi acompanhado por uma deterioração dos indicadores de inadimplência. A proporção de pessoas inadimplentes passou de 19,9% em 2021 para 26,3% em 2025.

O saldo inadimplente apresentou crescimento ainda mais expressivo: passou de R$ 54 bilhões para R$ 177,6 bilhões no período. Com isso, a inadimplência em relação à carteira ativa avançou de 1,98% para 3,97%.

As negativações também aumentaram. Entre 2021 e 2025, o volume de registros cresceu 73,1%, enquanto o número de consumidores negativados avançou 39,8%. Na média, cada pessoa negativada passou de duas para três restrições registradas.

Apesar da piora dos indicadores, a maior parte dos consumidores permanece adimplente. Em 2025, 73,7% dos mais de 122 milhões de brasileiros com crédito ativo não apresentavam inadimplência.

Sete em cada dez brasileiros acham que ficou mais fácil se endividar

A percepção dos consumidores ajuda a dimensionar o outro lado da expansão do crédito. Segundo o levantamento, 72,3% consideram que ficou mais fácil se endividar desde o início da década.

Entre aqueles que avaliam que sua situação financeira piorou nos últimos cinco anos, as dívidas acumuladas aparecem entre as principais explicações. Nesse grupo, 78,6% afirmaram também ter adiado despesas de maior valor, como viagens, troca de veículo e financiamento de imóveis.

Outro ponto de atenção é o conhecimento financeiro: 20,6% dos entrevistados não acreditam possuir conhecimento suficiente para administrar as próprias finanças.

Comprometimento de renda permanece elevado

O comprometimento de renda dos brasileiros com contratos de crédito também avançou durante a primeira metade da década. O indicador passou de 70,3% em 2021 para 86,1% em 2024. Houve melhora em 2025, quando recuou para 81,1%, mas o patamar permaneceu acima do registrado no início do período analisado.

As diferenças entre gerações são relevantes. Entre os brasileiros de 30 a 39 anos, a taxa de inadimplência passou de 21,6% para 30,6% entre 2021 e 2025. Esse grupo encerrou o período com comprometimento de renda de 90,3%, o maior entre as faixas etárias analisadas.

Entre os jovens de 18 a 29 anos, o comprometimento chegou a superar 100% em 2024, antes de recuar para 82,1% no ano seguinte.

Na outra ponta, consumidores com mais de 60 anos registraram a menor taxa de inadimplência em 2025, de 18,4%, embora apresentassem o maior índice de endividamento total, de 42,7%.

Desafio para a segunda metade da década

Os dados desenham um mercado financeiro maior, mais digitalizado e acessível do que aquele existente no início dos anos 2020, mas também mostram que a ampliação da oferta de crédito exige atenção à capacidade de pagamento dos consumidores.

O desafio para os próximos anos será conciliar inclusão financeira e crescimento da concessão com maior precisão na análise de risco, educação financeira e ferramentas capazes de identificar antecipadamente situações de maior vulnerabilidade.

Nesse cenário, dados, inteligência artificial e modelos de análise de risco tendem a ganhar ainda mais espaço nas decisões de crédito, tanto para ampliar o acesso quanto para evitar que a expansão do mercado se traduza em níveis insustentáveis de endividamento.