Por Carlos Duarte, managing partner da águilahub, ex superintendente de TI da ASA Asset Management, ex-diretor de desenvolvimento de sistemas da B3

A evolução tecnológica do sistema financeiro brasileiro nos últimos dez anos é bastante significativa. Em 2015, os bancos investiam R$ 19,1 bilhões por ano em tecnologia. Em 2023, esse valor já havia alcançado R$ 39 bilhões e, para 2026, a Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária projeta um orçamento de R$ 50,4 bilhões. Em pouco mais de uma década, portanto, os recursos destinados à tecnologia mais que dobraram.
Esse crescimento acompanha uma mudança ainda maior na forma como o sistema financeiro opera. Em 2021, os bancos brasileiros registraram 119,5 bilhões de transações, sendo 70% realizadas pelos canais digitais. Em 2025, foram 240,8 bilhões de transações e os canais digitais passaram a responder por 83% do total. Em quatro anos, o volume de operações praticamente dobrou.
O celular talvez seja o melhor exemplo dessa transformação. Em 2021, foram 67,1 bilhões de transações por mobile banking. Em 2025, esse número chegou a 187,5 bilhões. A própria FEBRABAN calcula crescimento de 169% nas operações realizadas pelo celular nos últimos cinco anos.
Esses números mostram a dimensão da transformação digital dos bancos, mas também ajudam a colocar outra discussão em perspectiva. A arquitetura que sustenta esse mercado precisa acompanhar uma operação que cresceu em volume, velocidade e complexidade e que hoje depende de um número muito maior de conexões entre instituições e infraestruturas.
A infraestrutura por trás da digitalização
Quando olhamos para a experiência do cliente, a evolução é bastante visível. Pix, aplicativos, Open Finance e novos serviços digitais mudaram a relação das pessoas e empresas com os bancos. Por trás dessa experiência existe uma estrutura menos visível formada por sistemas críticos, sistemas legados, APIs, registradoras, depositárias, clearings, sistemas de liquidação e diversos outros participantes.
Os dados do Banco Central ajudam a dimensionar essa infraestrutura. Somente no segundo semestre de 2025 foram realizadas 78,4 bilhões de transações de pagamento no Brasil, movimentando R$ 68,2 trilhões. Em relação ao mesmo período de 2024, houve crescimento de 12,9% na quantidade de operações e de 14,1% no volume financeiro.
O Pix respondeu por 42,9 bilhões de transações no período, crescimento de 24,3% em um ano, e já representava 54,7% da quantidade de pagamentos. Em valor financeiro, entretanto, a TED ainda respondia por 34,7% do total movimentado e o Pix por 28,6%. Isso mostra como diferentes infraestruturas continuam coexistindo e sustentando necessidades distintas dentro do sistema financeiro.
É nesse ambiente que arquitetura passa a ter um papel ainda mais relevante, seja para suportar um número maior de operações ou para assegurar que diferentes modelos e serviços sigam convivendo, com segurança e disponibilidade.
Modernização em um ambiente cada vez mais integrado
A mesma pesquisa da FEBRABAN 2026 mostra que os bancos devem direcionar R$ 3,9 bilhões para migração para cloud neste ano, crescimento de 30% em relação a 2025. Esse tema aparece como prioridade para 84% das instituições pesquisadas. Ao mesmo tempo, o setor pretende investir cerca de R$ 3 bilhões em Inteligência Artificial, Analytics e Big Data.
São investimentos importantes, mas a modernização de uma instituição financeira precisa considerar também como essas tecnologias se integram ao ambiente que já existe. Sistemas desenvolvidos em diferentes períodos continuam responsáveis por operações críticas e precisam conversar com novas plataformas, APIs e infraestruturas externas.
Esse é um desafio conhecido por quem acompanhou mudanças estruturais do mercado financeiro brasileiro. A implantação do SPB exigiu uma revisão importante de processos, sistemas, controles e integrações. Desde então, tivemos outras mudanças relevantes, como DDA, Pix, Open Finance e a evolução das infraestruturas de registro, depósito e liquidação.
Agora, temos também o novo ambiente das duplicatas escriturais, que amplia a interoperabilidade entre sistemas de escrituração, registro e depósito centralizado. Para bancos e demais instituições financeiras, esse movimento aumenta a necessidade de integração e conciliação com diferentes participantes e reforça a importância da qualidade e rastreabilidade das informações.
Arquitetura também é uma decisão de negócio
Quando o orçamento de tecnologia ultrapassa R$ 50 bilhões e o sistema processa centenas de bilhões de operações por ano, decisões sobre arquitetura deixam de ficar restritas à área de tecnologia. A capacidade de integrar uma nova infraestrutura, atender uma mudança regulatória, lançar um produto ou absorver um crescimento significativo de volume depende diretamente dessas escolhas.
A própria Pesquisa FEBRABAN mostra um sinal interessante. Entre os profissionais de tecnologia mais demandados pelos bancos em 2025 aparecem desenvolvedores de software, engenheiros de IA e de dados, profissionais de DevOps e arquitetos corporativos. É um reflexo de um mercado que percebe que incorporar novas tecnologias exige também repensar como elas convivem dentro de uma arquitetura cada vez mais complexa.
O sistema financeiro brasileiro avançou muito em digitalização (felizmente!) e continuará avançando. Os investimentos em cloud, dados e inteligência artificial mostram que esse movimento deve ganhar ainda mais velocidade nos próximos anos. Ao mesmo tempo, sistemas críticos, registradoras e demais infraestruturas precisam continuar evoluindo para sustentar esse crescimento.
Depois de acompanhar algumas das grandes transformações da infraestrutura financeira brasileira, vejo que esse talvez seja um dos pontos centrais da agenda atual das instituições. A discussão não está apenas em qual tecnologia adotar, mas em como construir uma arquitetura capaz de incorporar essas tecnologias sem perder segurança, disponibilidade e capacidade de integração.
Os números mostram que o sistema financeiro mudou de escala. A arquitetura precisa estar preparada para operar nessa nova realidade.