IPCA recua em abril, mas alerta sobre inflação persistente permanece

Economia

 A inflação de abril (0,67%) desacelerou em relação ao resultado de março (0,88%), mas acumula alta de 2,60%, no primeiro quadrimestre, chegando a 4,39% nos últimos 12 meses. Com taxa de 1,34%, o grupo alimentos e bebidas respondeu por 0,29 p.p., enquanto no grupo saúde e cuidados pessoais, a alta foi de 1,16% e o impacto 0,16 p.p. no índice do mês. O subitem com maior impacto individual foi a gasolina, que desacelerou de 4,59%, em março, para 1,86%, em abril, e representou 0,10 pp do indicador. Os resultados da inflação oficial do país foram divulgados, na manhã desta terça-feira (12), pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Confira abaixo os comentários de especialistas a respeito do macroindicador:

Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD

O IPCA de abril veio em 0,67%, praticamente em linha com o esperado pelo mercado, e mostrou uma desaceleração em relação aos 0,88% de março. Em 12 meses, a inflação acumula alta de 4,39%, ainda muito próxima do teto da meta do Banco Central.

O número confirmou o que o mercado já vinha antecipando: a inflação segue pressionada por uma tríade bastante indigesta para o consumidor brasileiro — alimentos, combustíveis e medicamentos.

O grupo de alimentos e bebidas subiu 1,34% e respondeu sozinho por 0,29 ponto percentual do índice. O leite longa vida disparou 13,66%, e outros itens importantes da cesta, como cebola, tomate e carnes, também subiram. Em saúde e cuidados pessoais, o impacto foi de 0,16 ponto, refletindo o reajuste anual dos medicamentos.

O item com maior impacto individual foi a gasolina, que subiu 1,86% e respondeu por 0,10 ponto percentual do IPCA. Mesmo desacelerando em relação a março, o combustível continua refletindo a alta do petróleo no mercado internacional, em meio às tensões no Oriente Médio.

Houve algum alívio do lado dos serviços, com destaque para a queda de 14,45% nas passagens aéreas, o que ajudou a segurar uma leitura ainda mais forte do índice.

Mas o dado qualitativo não foi tão benigno. A média dos núcleos acelerou para 0,50%, acima dos 0,44% de março e também acima da expectativa de 0,43%. Isso mostra que a inflação subjacente segue resistente. Por outro lado, a difusão recuou de 67,4% para 65,3%, sinalizando uma leve melhora na disseminação das altas.

Para o Banco Central, o recado é claro: apesar da desaceleração do índice cheio, os núcleos continuam pressionados e as expectativas seguem desancoradas. Isso reforça a postura cautelosa do Copom.
O mercado ainda enxerga espaço para cortes adicionais da Selic, mas em ritmo mais moderado, provavelmente de 0,25 ponto percentual por reunião. Dependendo da evolução do petróleo, do câmbio e das expectativas, não está descartada nem uma pausa no ciclo.

Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos

Os dados corroboram a visão de que uma aceleração no ritmo de cortes (atualmente em 25 bps) é muito improvável. A resiliência de serviços limita o espaço para uma postura mais dovish do Copom.

O cenário reforça a tese de um ciclo curto. Com expectativas desancoradas e choques de oferta (petróleo/geopolítico), o risco para a Selic terminal (estimada em 14,00%) é de viés altista.

O BCB deve manter a estratégia de “ganho de tempo”, utilizando o patamar restritivo da Selic para absorver a volatilidade. O balanço de riscos permanece desafiador, com a atividade econômica resiliente impedindo uma convergência mais célere da inflação à meta.

O dado reforça a necessidade de cautela. O debate saiu de “quanto acelerar” para “onde parar”, com probabilidade crescente de uma interrupção precoce do ciclo caso a desinflação de serviços não ganhe tração.

Gabriel Pestana economista sênior da Genial Investimentos

O IPCA de abril avançou 0,67% m/m, ligeiramente acima da nossa projeção de 0,65% e em linha com o mercado. Apesar do desvio pequeno no headline, a composição foi pior do que o esperado. O sinal dos erros de projeção foi majoritariamente altista, todos os cinco núcleos vieram acima do projetado e a leitura reforça um quadro de pressão mais disseminado do que o número cheio sugere. A gasolina foi o principal contraponto benigno, evitando que o IPCA chegasse a 0,71% m/m.

 A piora qualitativa veio principalmente de alimentos e serviços. Alimentação no domicílio surpreendeu para cima, revertendo um viés que era de baixa, com destaque para carne bovina, item de peso relevante e maior inércia. Embora a queda recente das proteínas no atacado possa aliviar o grupo nos próximos meses, o print de abril foi desfavorável tanto em termos quantitativos quanto qualitativos. Em serviços, o headline ficou relativamente comportado, mas a composição segue preocupando, com intensivos em trabalho surpreendendo mais uma vez e, dessa vez, puxando o núcleo.

Nos demais grupos, industriais vieram acima do projetado, mas com uma composição mais neutra, dado o contraponto baixista em itens relevantes como automóvel novo e vestuário. Já os administrados ajudaram a conter o índice, sobretudo pela gasolina, que subiu menos do que o esperado e pode continuar atuando como vetor baixista nas próximas leituras.

No balanço, o IPCA de abril combina um headline próximo do esperado com uma mensagem qualitativa ruim: núcleos pressionados, serviços mais resilientes e alimentos piores, parcialmente compensados por gasolina.