Copom interrompe sequência de quedas e mantém Selic em 13,75%

Economia

Decisão do Comitê Nacional de Política Monetária reforça alerta para pressão inflacionária

 O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter a taxa básica de juros para 13,75% a.a., interrompendo o ciclo de calibração da política monetária.

​O ambiente externo tornou-se mais adverso em função do prolongamento dos conflitos armados no Oriente Médio, com impactos altistas sobre o preço do petróleo e derivados. O cenário é de elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.

Em relação ao ambiente doméstico, o conjunto dos indicadores indica uma moderação mais acentuada da atividade econômica, principalmente em setores mais cíclicos. O mercado de trabalho permanece resiliente, porém apresentando sinais de desaquecimento.

Abaixo, seguem comentários de especialistas a respeito da decisão:

Natalie Victal, Economista-chefe da SulAmérica Investimentos

BCB manteve a Selic em 13,75%, em linha com o esperado. Comunicado neutro/dovish. BC mostra desconforto ao pausar, e segue dependente dos dados. Barra para altas parece elevada.

Linguagem ligeiramente dovish,ao destacar a desaceleração “mais acentuada da atividade”. Também destaca “sinais de desaquecimento na margem”. Na parte de atividade, também chamou atenção a retirada do “mais” positivo, ao qualificar o cenário alternativo para o hiato. Fica a impressão que o hiato estimado pelo BCB está no máximo neutro (ou negativo).

Por outro lado, destaque à aceleração dos núcleos de inflação. E maior preocupação com cenário internacional, qualificando como “mais adverso”.

Dependente dos dados. Incluiu a desaceleração da atividade mais acentuada na caracterização do contexto, qualificou a desancoragem – que já estava lá –, falando em expectativas mais elevadas.

Projeção ligeiramente abaixo do que esperávamos, mas via arredondamento, é ok.

Ou seja, entrega a manutenção, mas mostra que a barra para debater alta é elevada. Ou seja, estratégia que ele tem em mente é higher for longer.

Pablo Spyer, Conselheiro da ANCORD e economista

O Banco Central acertou ao interromper o ciclo de cortes da Selic e manter os juros em 13,75% ao ano. A decisão era esperada pelo mercado, mas o mais importante foi o tom do comunicado: o Copom reconheceu uma piora significativa do cenário inflacionário, elevou suas projeções de inflação e destacou o aumento das incertezas internas e externas.

A projeção para o IPCA no segundo trimestre de 2028, novo horizonte relevante da política monetária, subiu de 3,2% para 3,5%. Para 2027, saltou de 3,9% para 4,7%. Ao mesmo tempo, o Banco Central apontou uma desaceleração mais acentuada da atividade econômica. É justamente esse o dilema: de um lado, a economia perde fôlego; de outro, a inflação e as expectativas continuam pressionadas. O recado é claro: não há espaço confortável para reduzir juros neste momento.

E o comunicado também traz uma mensagem importante para as próximas reuniões: o Copom não fechou definitivamente a porta para novos cortes, mas deixou claro que a retomada do ciclo dependerá de uma melhora consistente da inflação, das expectativas e das condições financeiras. Para dezembro, a manutenção dos juros em 13,75% ganha força como cenário, enquanto um novo corte se tornou mais difícil de justificar.

O próprio mercado já trabalha majoritariamente com a possibilidade de uma pausa também na última reunião do ano. A política fiscal, o comportamento do dólar e os preços do petróleo serão fundamentais para determinar os próximos passos. Mais do que uma pausa, o que estamos vendo é um Banco Central disposto a manter os juros elevados por mais tempo para impedir que a inflação se afaste ainda mais da meta. A mensagem aos investidores é que o ciclo de cortes pode ter chegado ao fim, pelo menos por enquanto.

Um detalhe que chamou atenção no comunicado foi a retirada da palavra calibração. Na reunião anterior, o Banco Central dizia que o tamanho do ciclo de ajustes dos juros seria definido conforme os próximos indicadores. Agora, essa referência desapareceu. É um sinal de que o ciclo de cortes pode ter terminado e de que o Banco Central quer preservar sua liberdade de ação. Não significa que teremos alta de juros, mas também não permite descartar essa possibilidade. O recado é: a prioridade é controlar a inflação, e a Selic poderá ficar elevada por muito mais tempo.

Cristiano Oliveira, Diretor de pesquisa econômica do Banco Pine

O Copom manteve a taxa Selic em 13,75% ao ano, em decisão unânime e em linha com nossa projeção. O comunicado reconheceu uma desaceleração mais acentuada da atividade e sinais de desaquecimento do mercado de trabalho, mas apresentou um diagnóstico mais cauteloso para a inflação e o ambiente externo.

O Comitê destacou a aceleração da inflação cheia e das medidas subjacentes, a deterioração das expectativas e os efeitos dos choques de oferta. A projeção para o segundo trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária, subiu para 3,5%, acima da meta. O balanço de riscos também passou a incorporar explicitamente possíveis efeitos secundários da alta do petróleo e dos eventos climáticos sobre os preços livres, a produtividade agrícola e os custos de energia.

A retirada da referência à “magnitude total do ciclo de calibração” indica que a pausa poderá se estender além da reunião de dezembro. Em nossa avaliação, o comunicado é compatível com a manutenção da Selic em 13,75% na última reunião do ano. A retomada da flexibilização em 2027 dependerá de uma melhora mais consistente das expectativas de inflação, da evolução da política fiscal e da confirmação do processo de desaceleração da atividade.

José Márcio Camargo, Economista-chefe da Genial Investimentos

O Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 13,75% ao ano. No comunicado, o Comitê deu destaque à desaceleração mais acentuada da atividade econômica, ao mesmo tempo em que reconheceu a aceleração da inflação e de suas medidas subjacentes, que permanecem acima do limite superior do intervalo de tolerância da meta. O Copom também deu pouca atenção ao que aconteceu na economia brasileira nos últimos 10 dias.

Nos últimos 10 dias já tivemos uma desvalorização cambial próxima a 10%, queda nos preços das ações de quase 20 pontos de porcentagem e o deslocamento da curva de juros de dois pontos de porcentagem. Sem dúvida, esse movimento dos preços dos ativos vai continuar persistindo durante algum tempo e deve inclusive afetar a taxa de inflação nos próximos meses, o que muito provavelmente deverá fazer com que o próximo Copom tenha que elevar a taxa de juros em novembro. Um ponto importante é o fato de que, apesar de todas as pressões do PT para que o Banco Central continue reduzindo a taxa Selic, a diretoria do Banco Central resolveu parar de reduzir a taxa de juros, o que muito provavelmente vai gerar uma certa insatisfação da parte de alguns políticos do Partido dos Trabalhadores. Mas é um sinal de que o Copom continua independente e continua tentando tomar suas decisões sem interferência política. Esse é um bom sinal para os próximos meses, se por acaso os dados persistirem nessa trajetória de pressionar a taxa de inflação no futuro.

Felipe Rodrigo de Oliveira, Economista-chefe da MAG Investimentos

 O Copom decidiu manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, interrompendo o ciclo de cinco cortes consecutivos iniciado em março, em linha com a expectativa da MAG Investimentos. No comunicado, o BC destacou que o ambiente externo tornou-se mais adverso, marcado pela elevação da volatilidade dos mercados, tensões geopolíticas, preços de commodities mais pressionados e condições financeiras globais ainda restritivas. No cenário doméstico, a autoridade monetária reconheceu uma desaceleração mais intensa da atividade econômica, especialmente nos segmentos mais sensíveis aos juros, mas ressaltou que a inflação corrente e suas medidas subjacentes voltaram a acelerar, permanecendo acima do limite superior da meta. Além disso, as expectativas de inflação seguem desancoradas, o que aumenta o custo de convergência dos preços para a meta. Cabe ressaltar a aceleração da projeção de inflação no horizonte relevante para 3,5%, distanciando-se ainda mais da meta.

O tom do comunicado foi cauteloso e , na nossa visão, indica que a autoridade monetária deverá manter a Selic no atual patamar na última reunião do ano. O Copom enfatizou a deterioração das expectativas de inflação de médio e longo prazo, o aumento das incertezas em torno do cenário econômico e a necessidade de serenidade na condução da política monetária. Embora a atividade econômica apresente sinais mais evidentes de desaceleração, o Comitê avaliou que os riscos para a inflação permanecem elevados e com viés altista, citando tanto fatores externos quanto os impactos das condições fiscais domésticas sobre os preços dos ativos e a condução da política monetária. A mensagem principal é que a manutenção dos juros em patamar restritivo continuará sendo necessária até que haja evidências mais claras de convergência da inflação e das expectativas para níveis compatíveis com a meta.

José Cláudio Securato, CEO e Professor da Saint Paul Escola de Negócios

O Banco Central do Brasil, por meio do Comitê de Política Monetária (Copom), acertou ao manter a taxa básica de juros em 13,75% ao ano, interrompendo o ciclo de queda da Selic. Apesar das incertezas no cenário internacional, foram os fatores domésticos que mais pesaram na decisão. A perspectiva de desaceleração da atividade econômica e de aumento do desemprego tende a reduzir as pressões inflacionárias pelo lado da demanda. Por outro lado, a elevação dos preços do petróleo e a desvalorização cambial pressionam os custos de produção, criando riscos adicionais para a trajetória da inflação.

Nesse contexto, a postura de cautela do Banco Central parece adequada, sobretudo diante das incertezas sobre os rumos da política econômica do governo Lula 4. A definição dos nomes para o Ministério da Fazenda e a Casa Civil deverá sinalizar, respectivamente, a orientação da política fiscal e a capacidade de articulação política do novo governo. Sem maior previsibilidade sobre a condução da política econômica e sinais consistentes de convergência da inflação para a meta, faz sentido interromper o ciclo de redução dos juros e aguardar condições mais favoráveis para retomar a flexibilização monetária.