Comitê reforçou que manterá restrições com o objetivo de levar a inflação à meta
A ata do Copom divulgada na manhã desta terça-feira (22) indica que a política de redução de juros deve seguir sob forte monitoramento, diante de um cenário de incertezas e pressão inflacionária. Apesar da desaceleração da economia, a inflação permanece acima da meta.
Confira abaixo os comentários de especialistas sobre o documento:
Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD
A ata do Copom deixa um recado que o mercado precisa ouvir: o corte da Selic aconteceu, mas a festa dos juros baixos ainda não está contratada. O Banco Central reconhece que os efeitos da política monetária restritiva finalmente estão aparecendo com mais força na economia, com desaceleração do PIB, do crédito e dos setores mais sensíveis aos juros. Mas, ao mesmo tempo, a inflação continua acima da meta e, principalmente, as expectativas seguem desancoradas.
E aqui está o ponto mais importante da ata: o próprio Copom afirma que, nesse ambiente, é necessária uma política monetária restritiva maior e por mais tempo do que seria normalmente apropriado.
Portanto, a ata traz mais pistas, mas não entrega uma trajetória definida para os próximos cortes. O Banco Central mantém a porta aberta para continuar reduzindo a Selic, mas deixa claro que o ritmo e a magnitude dependerão dos próximos dados. E os dados que podem fazer toda a diferença são justamente inflação, expectativas, atividade e cenário fiscal.
A ata também reforça que uma política fiscal expansionista ou dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida podem elevar o prêmio de risco e até aumentar a taxa de juros neutra da economia, dificultando o trabalho do Banco Central. Então, a mensagem é clara: o BC continuou calibrando os juros, mas não vai acelerar no escuro. A economia está desacelerando, a inflação corrente melhorou, mas enquanto as expectativas não estiverem ancoradas, o Banco Central sinaliza que prefere manter a mão pesada nos juros por mais tempo. É uma flexibilização com freio de mão puxado: há espaço para novos cortes, mas eles continuam totalmente dependentes da evolução do cenário.
Natalie Victal, economista-chefe da SulAmerica Investimentos
– Ganho de convicção na desaceleração da atividade. Não fala mais em sinais mistos, e destaca desaceleração mais intensa em setores cíclicos.
– Inclusão de parágrafo detalhando o comportamento do crédito. Faz distinção entre prazos, linhas e por origem dos recursos. Ao destacar o crédito passa mensagem de ganho de convicção no funcionamento da política monetária, destacando que o bom comportamento de direcionados deve-se a fatores exógenos.
– No parágrafo de inflação, destaca a melhora corrente ao consumidor – pela discutível métrica do acumulado em 12m. Por outro lado, destaca a piora da inflação ao produtor.
– Leitura de que a revisão na política monetária dos países avançados deu-se devido à maior incerteza geopolítica e seus efeitos sobre commodities. Leitura é um pouco dovish ao ver como algo mais circunstancial do que devido a fundamentos menos construtivos.
Em resumo, pontos incluídos são um pouco dovish. Mostra um BC que quer continuar cortando.
Revisamos terminal de 2026 para 13,5%, e continuamos vendo assimetria baixista para essa projeção.
Yihao Lin, economista da Genial Investimentos
A ata de hoje veio com o tom em linha com o comunicado da semana anterior, sinalizando um Copom confiante com o processo de arrefecimento e desinflação da economia, mesmo diante de um ambiente externo mais incerto e manutenção de expectativas desancoradas no mesmo patamar da reunião anterior.
A nosso ver, isso sinaliza uma diretoria mais inclinada a suavizar o ciclo do que promover uma desaceleração mais intensa da economia para garantir uma convergência mais rápida e com menos riscos da inflação à meta.
Apesar do nosso cenário base ser de manutenção da taxa de juros no patamar atual de 13,75% até o final do ano, entendemos que a ata de hoje aponta para uma maior inclinação do Copom seguir afrouxando a Selic nas próximas reuniões, impondo um viés baixista para a nossa projeção.
Contudo, ressaltamos que a continuidade do ciclo de afrouxamento dependerá fundamentalmente do resultado das eleições e o seu impacto sobre o câmbio, sendo esse fator, a nosso ver, um trigger relevante para a continuidade do ciclo de calibração ou não.
Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos
A ata da última reunião do Copom reforçou a desaceleração da atividade, em especial dos setores mais cíclicos, conforme já constava no comunicado. A inflação mostrou melhora, situando-se abaixo do limite de tolerância, mas acima da meta, tanto no dado cheio, quanto na média das medidas subjacentes.
Outro destaque da ata foi a menção a desaceleração da concessão de crédito, nas medidas mais sensíveis à política monetária. Com relação aos próximos passos, a autoridade monetária deixou a “porta aberta”, ou seja, ela seguirá dependente dos dados para definir a evolução da taxa Selic. No nosso cenário, a Selic deverá ficar estável em 13,75% até o fim do ano. Contudo, dada a desaceleração da atividade e a projeção de inflação do BC mostrando inflação caminhando para a meta, ainda que lentamente, em conjunto com o nível elevado dos juros, o cenário alternativo de corte de 0,25 p.p para 13,50% tem ganhado força.
Roberto Luis Troster, coordenador do Cefeb/Fipe ( CEFEB – Centro de Estudos Fipe do Endividamento das Empresas Brasileiras)
Foi o quinto corte consecutivo, de 0,25 ponto percentual, decidido por unanimidade e sem sinalização explícita para novembro. Ainda assim, é razoável projetar um corte de igual magnitude na próxima reunião e outro em dezembro. Os dados de atividade e de crédito sustentam essa expectativa, apesar das pressões inflacionárias — uma postura consistente com a busca de melhor relação custo-benefício da política monetária. Evidentemente, mudanças significativas nesses números alterariam a projeção.
Apesar da pressão do mercado de trabalho, há indícios de deterioração na qualidade da oferta de crédito, com maior participação de linhas mais curtas e caras, acompanhada de arrefecimento da atividade econômica.
As projeções de inflação estão acima do teto da banda, embora a inflação corrente permaneça abaixo dele. Parte dessa diferença se explica pelo aumento dos preços de bens intermediários, que pode ser repassado ao consumo mais adiante.
Há comentários sobre a preocupação com a pressão fiscal dos gastos do governo, mas nenhum sobre o impacto dos juros na sustentabilidade da dívida pública.