O avanço do luxo acessível começa a ampliar a fronteira entre consumo de massa e produtos premium no Brasil. O país reúne cerca de 7,5 milhões de consumidores que, mesmo com renda mensal de até R$ 8 mil em parte relevante desse público, compram produtos associados a sofisticação, diferenciação e desejo de ascensão de consumo. O movimento acompanha um mercado de luxo que vem registrando crescimento de aproximadamente 18% ao ano no Brasil, em contraste com a desaceleração observada em alguns dos principais mercados globais. Em vez de uma migração generalizada para artigos de luxo tradicionais, o cenário aponta para uma expansão do chamado luxo acessível, faixa em que o consumidor aceita elevar o desembolso quando percebe diferenças de qualidade, experiência, apresentação ou desempenho. Esse movimento alcança fabricantes historicamente concentradas em produtos de grande escala e menor preço. Proprietária das marcas Farnese, Cloy e Gipsy, a Sinter fatura cerca de R$ 500 milhões por ano, produz em média 30 milhões de sabonetes por mês e divide sua receita de forma praticamente equilibrada entre a fabricação para terceiros e as marcas próprias.
Nesse segundo segmento, a empresa passou a atuar também no mercado de cuidados capilares com a Farnese, por meio de uma linha de 19 produtos, entre shampoos, condicionadores, máscaras e finalizadores. A mudança amplia a exposição da companhia a categorias com preços médios superiores aos dos sabonetes, mas também exige investimentos em produção, distribuição e posicionamento em um mercado ocupado por concorrentes nacionais e multinacionais. A estratégia parte de uma diferença econômica entre as categorias. O sabonete em barra oferece recorrência e volume, mas enfrenta forte disputa por preço, o que reduz o espaço para reajustes e limita o crescimento do tíquete médio. Produtos capilares, por outro lado, participam de diferentes etapas da rotina de cuidados e permitem trabalhar com faixas de preço mais amplas. Segundo Breno Grou, CEO e sócio da Sinter, os novos itens terão preços variados, porém acessíveis. Entre os exemplos estão o shampoo, vendido a R$ 19,90, e a máscara capilar, a R$ 26,10. “O objetivo é crescer, sobre o crescimento, é 20% até o final do ano, ampliando nossa presença em categorias de maior valor agregado sem nos afastar do consumidor de massa. Queremos tornar produtos com formulações sofisticadas, e acessíveis para um público maior, transformando essa expansão em recorrência de compra. Esse é um mercado em crescimento, e a tendência é que os consumidores continuem buscando produtos que combinem qualidade, experiência e preço acessível ”, afirma Breno Grou.
A faixa mantém a companhia distante do mercado tradicional de alto luxo e aproxima a estratégia do conceito de premium acessível, no qual atributos mais sofisticados são incorporados a produtos destinados ao consumo de massa. A execução da estratégia ainda depende da resposta do consumidor e da capacidade de distribuição. A Sinter prepara uma fábrica de cosméticos voltada a produtos líquidos, enquanto parte da linha capilar continua sendo produzida por terceiros. O modelo permite avaliar a demanda antes da internalização completa da operação, mas exige controle de custos, qualidade e prazos de entrega. A empresa também terá de conquistar espaço em farmácias, perfumarias, supermercados, atacarejos, marketplaces e canais de social commerce. “Esse é o nosso luxo acessível: transformar o cotidiano em uma experiência especial”, afirma Rafaela Côrte Real Miana, diretora de Marketing e Inovação da Sinter. Para uma companhia com faturamento anual de R$ 500 milhões, o avanço para categorias de maior valor agregado será medido pela capacidade de gerar recompra, ampliar o tíquete médio e sustentar preços competitivos diante de empresas já consolidadas.