IPCA-15 mantém alerta para inflação em abril

Economia
 O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) foi de 0,89% em abril e ficou 0,45 ponto percentual (p.p.) acima do resultado de março (0,44%). No ano, o IPCA-15 acumula alta de 2,39% e, nos últimos 12 meses, 4,37%, acima dos 3,90% observados nos 12 meses imediatamente anteriores. Em abril de 2025, a taxa foi de 0,43%. Confira abaixo os comentários de especialistas a respeito do macroindicador.

Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD

O resultado do IPCA-15 de abril veio ligeiramente melhor que o esperado, com alta de 0,89%, abaixo das projeções de 0,98%. O dado confirma um cenário de inflação pressionada, mas ainda concentrada em itens mais voláteis, especialmente alimentos e combustíveis, muito influenciados pelo ambiente externo e pela recente alta do petróleo.

Apesar da aceleração em relação ao mês anterior, não observamos, neste momento, um processo de descontrole inflacionário. A perda de força dos serviços na margem é um sinal positivo, mas o aumento da difusão mostra que a inflação ainda segue relativamente espalhada pela economia, o que exige cautela na condução da política monetária.

Para o mercado financeiro, a leitura principal é que o dado não muda substancialmente o cenário-base. A inflação continua sob pressão, mas dentro de um quadro administrável, o que mantém abertas as apostas de um corte de 0,25 ponto na taxa Selic pelo Banco Central nesta quarta. Em resumo, trata-se de um resultado que reforça a necessidade de vigilância, mas que não altera a trajetória esperada para a política monetária neste momento. 

Mariana Rodrigues, economista da SulAmérica Investimentos

O IPCA-15 de abril registrou alta de 0,89%, abaixo da nossa projeção de 1,01% e da mediana Bloomberg de 0,98%. A principal surpresa baixista concentrou-se em passagens aéreas. A tendência, contudo, é de reversão parcial desse movimento nos próximos meses, diante do avanço da guerra e de seus impactos sobre o querosene de aviação.
  Do ponto de vista qualitativo, o resultado foi misto. Os bens industriais voltaram a surpreender para cima, de forma disseminada, enquanto a abertura de serviços mostrou subitens menos pressionados.
No geral, o dado de hoje reforça a leitura de um cenário ainda desafiador para a inflação, especialmente diante de mais uma surpresa altista em bens industriais — componente que, por um longo período, sustentou uma visão mais benigna para o IPCA por parte relevante do mercado.

Gabriel Pestana, economista sênior da Genial Investimentos

O IPCA-15 de abril registrou alta de 0,89% m/m, ficando +10 bps acima da nossa expectativa de 0,99% m/m. Passagem aérea contribuiu com -13 bps de baixa, ou seja, sem passagem aérea, o índice teria registrado alta de 1,02% m/m, um pouco acima da nossa expectativa e da expectativa de mercado (0,98% m/m, Broadcast+). Apesar da surpresa baixista no headline, vemos uma composição um pouco pior em relação à projeção. O forte vetor de alta para a leitura, a gasolina, ficou próxima da nossa expectativa, subindo 6,23% m/m e, apenas esse item, contribuiu com +0,32 p.p. no índice geral.
  Alimentos subiram menos do que esperávamos, mas com itens importantes como carne e leite ficando acima. Essa contribuição foi neutralizada por in-natura mais baixos, mas também arroz e café, trazendo um tom mais neutro para o grupo. Por outro lado, bens industriais apresentaram surpresa altista elevada no headline e com direcional disseminado nos itens. No entanto, parte relevante desta foi causada por perfume, amenizando a leitura negativa do grupo, mas não mudando o sinal.

Headline de serviços foi de 0,03% m/m, enquanto nossa projeção era de 0,37% m/m. Esse diferencial contribui com -13 bps no índice geral. Essa é exatamente a mesma magnitude da surpresa em passagem aérea, que registrou queda de -14,32% m/m, enquanto nossa projeção era de 0,74% m/m. No entanto, alimentação fora do domicílio e serviços intensivos em trabalho, grupos sensíveis a demanda e mercado de trabalho, surpreenderam bem para cima. Aluguel e condomínio ajudaram a amenizar o impacto nos serviços subjacentes, mas vemos uma composição pior. Índice segue refletindo demanda elevada e mercado de trabalho dinâmico.

Nossa visão é que a surpresa baixista é bem explicada pela volatilidade de alguns itens. Itens sensíveis as condições de oferta vieram pressionados, como esperado, com alguma piora até nos industriais. As aberturas mais inercias e bem conectadas aos fundamentos macro seguem desfavoráveis, acumulando alta próxima de 7,0% nos últimos doze meses. O sinal aqui é de reforço da cautela para a condução da política monetária, e não o contrário. Diante dessa piora, aumentamos nossa expectativa de taxa Selic de 12,50% para 13,25% para 2026, refletindo uma sequência de cortes de -25 bps por reunião.

Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa econômica do banco Pine

A prévia da inflação mostrou sinais mistos. Por um lado, a inflação de serviços apresentou desaceleração pelo segundo mês consecutivo, mas bastante impactado por itens voláteis.

Por outro lado, algumas das medidas de núcleo mostram estabilidade indicando que o processo de desaceleração da taxa de inflação perde ímpeto.

A incorporação dos itens da leitura prévia que se repetem no final do mês indicam que revisão baixista para a inflação de abril, mas que não altera a perspectiva para a dinâmica da inflação ao longo do ano, que é impactada pela pressão altista oriunda do cenário internacional.

Por ora, mantemos nossa expectativa de inflação IPCA em 5,4% para 2026.