LGPD na prática: como clínicas podem usar IA sem colocar dados médicos em risco

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A digitalização da saúde avança em ritmo acelerado no Brasil, impulsionada por prontuários eletrônicos, telemedicina e, mais recentemente, por soluções baseadas em inteligência artificial. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a segurança dos dados médicos, considerados informações sensíveis pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Segundo o relatório Cost of a Data Breach 2024, da IBM Security, o setor de saúde segue liderando o ranking global de custo médio por vazamento de dados, sendo o mais caro entre todas as indústrias analisadas pelo estudo.

O risco não é apenas financeiro. Informações clínicas envolvem histórico médico, exames, diagnósticos e prescrições, dados que, quando expostos, podem gerar danos éticos, legais e à reputação das instituições. De acordo com levantamento da Cisco Data Privacy Benchmark Study, mais de 90% dos consumidores afirmam que não confiariam seus dados a organizações que não demonstram responsabilidade na proteção das informações pessoais, um fator crítico para clínicas e consultórios que lidam diariamente com dados sensíveis.

Nesse cenário, cresce o debate sobre como adotar inteligência artificial na rotina médica sem violar princípios da LGPD, como finalidade, necessidade, segurança e transparência. Para especialistas, o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é utilizada.

“A inteligência artificial não pode ser tratada como uma ferramenta genérica quando falamos de saúde. Estamos lidando com dados extremamente sensíveis. É fundamental que as soluções sejam desenvolvidas especificamente para o contexto médico e sigam critérios rígidos de segurança e conformidade”, afirma o Dr. João Ladeia, médico e porta-voz da Mediccos.

Um dos erros mais comuns, segundo ele, é o uso de plataformas abertas ou não especializadas para registrar informações clínicas. “Quando o médico utiliza ferramentas que não foram desenhadas para o ambiente de saúde, ele corre o risco de expor dados dos pacientes a servidores externos sem controle jurídico ou técnico adequado”, explica.

Pensando nesse desafio, a Mediccos desenvolveu uma plataforma de inteligência artificial voltada exclusivamente para a documentação médica, com foco na organização dos dados clínicos sem interferir na decisão profissional. O sistema atua como um assistente administrativo: o médico continua responsável pelo diagnóstico, pela escolha da medicação e pela definição da posologia. A tecnologia apenas estrutura e registra aquilo que o próprio profissional informa, transformando a fala em prontuário e prescrição digital.

“O médico é quem decide. A inteligência artificial não sugere remédios nem interpreta exames. Ela organiza os dados que o profissional fornece, mesmo quando estão em linguagem livre, e gera documentos clínicos padronizados”, destaca Ladeia.

Além disso, a plataforma foi desenhada para atender aos princípios da LGPD, com foco em rastreabilidade, controle de acesso e segurança das informações. O objetivo é permitir que clínicas utilizem IA como ferramenta de produtividade sem abrir mão da responsabilidade legal sobre os dados dos pacientes.

A preocupação é justificada. Segundo a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), o setor da saúde está entre os mais sensíveis à fiscalização, justamente pelo tipo de informação tratado. Vazamentos podem gerar sanções administrativas, multas e bloqueio de operações, além de comprometer a confiança dos pacientes.

Para 2026, a expectativa é que o uso de IA na saúde se torne ainda mais comum, mas acompanhado de maior rigor regulatório. Estudos da Gartner indicam que a maioria das organizações de saúde no mundo já utiliza algum tipo de inteligência artificial em processos administrativos e clínicos, o que torna urgente o debate sobre governança de dados.

“O futuro da saúde digital depende da confiança. Se o paciente não se sentir seguro, nenhuma tecnologia se sustenta. Por isso, a inovação precisa caminhar junto com a proteção de dados”, conclui o Dr. João Ladeia.