Falta de integração operacional faz transportadoras perderem rentabilidade mesmo com faturamento em alta

Negócios

Em um setor responsável por mais de 65% da movimentação de cargas no Brasil, segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT), empresas de transporte enfrentam um desafio silencioso que compromete diretamente a rentabilidade: a falta de integração entre áreas operacionais, manutenção, abastecimento e financeiro.

Embora o faturamento cresça com o aumento da frota em circulação, muitas transportadoras convivem com margens cada vez mais apertadas. De acordo com estudos setoriais da CNT, os custos operacionais podem representar até 90% da receita bruta de uma operação de transporte rodoviário, sendo combustível, manutenção e pneus alguns dos principais vilões quando não há controle integrado.

Para Roger Maia, CEO e fundador da Vilesoft, software house brasileira desenvolvedora de tecnologia e soluções de gestão operacional, o problema não está apenas nos custos elevados, mas na forma como eles são analisados. “Quando cada área funciona como um silo isolado, o dinheiro não desaparece de uma vez. Ele vai vazando aos poucos, mês após mês, sem que o empresário consiga identificar exatamente onde está a perda”, afirma.

Na prática, a manutenção troca peças sem histórico consolidado, o abastecimento registra volumes sem cruzar consumo real por rota, veículo ou motorista, e o financeiro visualiza apenas o valor pago, sem conexão com a causa daquele gasto. “Sem integração, não há visão do que foi gasto, em qual ativo, em que momento e por qual motivo. Isso inviabiliza decisões rápidas e correções antes que o prejuízo se acumule”, explica Maia.

Um dos sinais mais comuns desse desequilíbrio aparece quando a operação cresce, mas o caixa não acompanha. “O faturamento sobe, a frota roda mais, mas o lucro parece sempre ficar para o próximo mês. Esse é um indicativo claro de que o crescimento está mascarando ineficiências estruturais”, destaca o executivo.

Esse cenário tende a se agravar quando surgem dificuldades para manter capital de giro, honrar compromissos ou investir na renovação da frota. Outro alerta frequente é a perda de competitividade, quando a empresa passa a ter dificuldade para fechar fretes porque seus custos internos estão mais altos do que os do mercado, mesmo oferecendo o mesmo nível de serviço.

Segundo Maia, a desconexão entre operação, compras e financeiro é uma das principais causas desse problema. “Compras pode até negociar bons preços, mas sem cruzar prazos e volumes com o fluxo de caixa projetado. Quando o título vence, o caixa não está preparado e a empresa recorre a antecipações caras ou capital de terceiros”, afirma.

Alguns custos só se tornam visíveis quando os dados são analisados de forma integrada. Pneus, por exemplo, podem representar até 20% do custo operacional de uma frota. “Trocas prematuras por excesso de carga, rotas inadequadas, calibragem incorreta ou falta de rodízio passam despercebidas sem rastreabilidade por veículo e quilometragem”, diz o CEO da Vilesoft.

O mesmo ocorre com o combustível, que responde pela maior fatia dos custos no transporte rodoviário. Consumos acima do padrão muitas vezes são tratados como normais quando se observa apenas o valor mensal. “A integração revela desperdícios, desvios de rota, falhas mecânicas ou problemas de condução que impactam diretamente a margem”, explica Maia.

A ausência de manutenção preventiva bem planejada também pesa no resultado. Falhas recorrentes geram custos mais altos, paradas não programadas e impacto direto na produtividade da frota. Além disso, retrabalhos operacionais, como entregas refeitas, rotas mal planejadas e tempo de veículo parado, raramente entram no custo real do frete.

Quando os dados operacionais passam a ser centralizados em uma única plataforma, a lógica da gestão muda. Informações antes espalhadas em planilhas e sistemas isolados passam a conversar entre si, permitindo ao gestor acompanhar custos em tempo real, antecipar desvios e entender o impacto de cada decisão no resultado final da operação.

“A gestão integrada transforma dados em inteligência. O empresário deixa de trabalhar no achismo e passa a enxergar claramente quanto custa cada veículo, quais rotas são rentáveis, quais clientes consomem margem e onde estão os gargalos financeiros da operação”, afirma Roger Maia.

Com essa visão consolidada, o foco deixa de ser apenas manter a frota rodando e passa a ser a sustentabilidade do negócio. “O gestor ganha previsibilidade, controla melhor o fluxo de caixa e consegue planejar investimentos, substituição de ativos e crescimento com muito mais segurança”, destaca o CEO da Vilesoft.

Nesse contexto, a tecnologia deixa de ser apenas operacional e passa a ocupar um papel estratégico na tomada de decisão. “Decisões baseadas em dados integrados, confiáveis e de fácil leitura são o que sustentam um crescimento saudável. É quando o lucro deixa de ser uma promessa futura e passa, de fato, a aparecer”, conclui Maia.