O comunicado divulgado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) trouxe um tom mais duro em relação às comunicações anteriores, mas dentro do que era considerado razoável diante do cenário atual para a inflação, na avaliação de Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Fórum Investimentos.
Para Perri, o Banco Central reconheceu no comunicado fatores que ainda pressionam o cenário prospectivo de inflação, especialmente a inflação de serviços e a inflação de demanda. “A inflação de serviços, a inflação de demanda têm uma melhora mais lenta do que o ideal. E o ritmo corrente dela está incompatível com o centro da meta”, afirma.
Segundo o economista, parte importante da melhora observada recentemente nos índices de inflação veio de fatores relacionados à oferta, especialmente da queda nos preços dos alimentos, e não necessariamente de uma desaceleração mais consistente dos componentes ligados à demanda.
O comunicado também destacou a moderação da atividade econômica, mas, na avaliação de Perri, esse processo ocorre de maneira gradual. “A atividade modera, mas vai moderando de forma lenta e paulatina”, diz. Ele acrescenta que alguns dados recentes podem ter reforçado essa percepção, enquanto o mercado de trabalho continua apresentando condições compatíveis com o cenário considerado pelo Banco Central.
Outro ponto destacado pelo economista é a sinalização do Copom em relação aos riscos para a inflação. Segundo Perri, o Banco Central voltou a mencionar a existência de riscos assimétricos para o cenário prospectivo, com maior relevância para os fatores de alta da inflação.
“Ele reforça bastante de que os riscos altistas são mais relevantes”, afirma. Na avaliação do economista, a comunicação também deixou claro que a autoridade monetária não está se comprometendo antecipadamente com uma decisão específica para a próxima reunião.
Perri avalia que o Banco Central adotou uma postura de maior dependência dos dados, condicionando os próximos passos à evolução do ambiente econômico. “Ele não se compromete com nenhum movimento na próxima reunião, num modo bem data dependente”, afirma.
Considerando apenas o conteúdo do comunicado e o cenário atual, que inclui preços do petróleo elevados e incertezas relacionadas às eleições, o economista considera provável uma pausa no próximo encontro do Copom. “Eu acho muito provável que a gente veja uma pausa no próximo Copom considerando exclusivamente o comunicado”, diz.
Apesar disso, Perri ressalta que ainda haverá tempo para mudanças no cenário até a próxima reunião e que novos dados econômicos poderão alterar as perspectivas para a política monetária.
“Acredito que a gente tende a ter bastante coisa para acontecer daqui até lá”, afirma. Segundo ele, neste momento, o compromisso do Banco Central é manter uma postura de neutralidade, enquanto novas informações poderão indicar os próximos movimentos da autoridade monetária.
Para os mercados financeiros, o economista projeta uma reação aos sinais mais duros apresentados pelo Copom. “Pelo tom mais hawkish — tudo mais constante — espero bolsa para baixo, dólar para baixo e juros para cima amanhã”, afirma.