Como a ida de adolescentes para universidades no exterior afeta a saúde emocional das famílias

Colunas Saúde e Bem Estar

 O número de brasileiros que viajam ao exterior para cursar universidades tem crescido e, com ele, a ansiedade dos pais. Dados do Institute of International Education (IIE) mostram que a mobilidade estudantil global alcançou níveis recordes após a pandemia, com aumento consistente de jovens passando longos períodos fora de casa.

Pesquisas do Journal of Family Psychology indicam que essas transições aceleram estágios da vida adulta, autonomia, independência financeira e afastamento físico, criando desafios emocionais tanto para os jovens quanto para os responsáveis. O início do ano letivo internacional, entre janeiro e março, é o período de maior estresse relatado pelas famílias.

Especialistas em desenvolvimento familiar destacam que essas mudanças mobilizam mecanismos emocionais profundos. Do ponto de vista psicológico, a separação precoce ativa processos ligados ao vínculo de apego, especialmente entre mães e filhos primogênitos. Estudos baseados na Teoria do Apego, de John Bowlby, mostram que ciclos de afastamento rápido podem gerar sentimentos de ameaça ou perda simbólica, ainda que a relação permaneça saudável. Essa experiência explica por que muitos pais relatam sintomas como hiperpreocupação, irritabilidade, alterações no apetite e até dificuldades de concentração nas semanas que antecedem e sucedem a partida dos filhos.

Para a psicóloga Dra. Andrea Beltran, os pais frequentemente vivenciam um ciclo emocional complexo. “Há orgulho pela conquista, mas também medo, vazio e insegurança. Essa combinação pode antecipar sensações típicas do ninho vazio, mesmo que os filhos ainda sejam muito jovens”, afirma. “É uma separação abrupta que exige reorganização da rotina e da identidade parental.”

Um estudo da Universidade de Heidelberg mostra que a distância física altera padrões de comunicação e aumenta a sensação de perda de controle parental, gerando ansiedade, distúrbios do sono e preocupação excessiva. Ao mesmo tempo, jovens relatam sentimento de solidão nas primeiras semanas, criando um período de instabilidade emocional para toda a família.

O processo de separação costuma impactar mais intensamente famílias latino-americanas, que tendem a manter laços afetivos mais estreitos e rotinas domésticas interdependentes. Isso torna a ruptura geográfica ainda mais sensível. Além disso, o tempo de adaptação pode variar conforme fatores como idade do jovem, características de personalidade, rede de apoio no destino e qualidade do vínculo prévio com os pais.

A Dra. observa que esse não é um sofrimento patológico, mas uma etapa de adaptação. “A família precisa construir novas formas de vínculo. Videochamadas estruturadas, conversas sobre expectativas e reforço da rede social local ajudam muito na adaptação dos pais.”

Segundo pesquisas da APA, famílias que planejam emocionalmente essa transição apresentam índices menores de ansiedade após os primeiros meses. “Não basta preparar documentação, moradia e finanças. A preparação emocional é igualmente essencial”, reforça Beltran.

A psicóloga acrescenta que a experiência pode fortalecer o vínculo familiar a longo prazo. “Quando o processo é vivido com diálogo e maturidade, cria-se um novo modelo de relação: mais confiante, aberto e baseado em autonomia.”

Nesse contexto, a transição deixa de ser apenas uma mudança geográfica e se torna um processo de amadurecimento coletivo. Para a especialista, reconhecer o impacto emocional da partida, ajustar expectativas e construir novos rituais de convivência, mesmo à distância, permite que a experiência seja vivida de forma menos angustiante e mais estruturada. Quando encarada com preparo e suporte, a ida dos jovens ao exterior não representa uma ruptura, mas uma reconfiguração do vínculo familiar, abrindo espaço para relações mais maduras, seguras e conscientes.