Reforma tributária acelera busca por planejamento patrimonial e reposiciona especialistas em governança familiar

Contabilidade Negócios

A implementação da Reforma Tributária e a criação de novos mecanismos de fiscalização vêm acelerando um movimento silencioso entre empresários, produtores rurais e famílias de alta renda: a reorganização do patrimônio por meio de estruturas societárias e modelos mais sofisticados de governança. A tendência reflete não apenas o aumento da carga tributária sobre a pessoa física, mas também a necessidade de reduzir riscos sucessórios, prevenir disputas familiares e ampliar a previsibilidade jurídica dos negócios.

Nesse contexto, o planejamento patrimonial deixou de ser uma estratégia restrita a grandes grupos econômicos e passou a integrar a agenda de famílias empresárias de pequeno e médio porte. “A Reforma Tributária, combinada com novos instrumentos de controle, como o Cadastro Imobiliário Brasileiro, está tornando inviável a informalidade na gestão do patrimônio”, afirma Carolina Ractz Bueno, advogada especializada em planejamento patrimonial, sucessório e governança familiar, cofundadora da Árvot Planejamento Patrimonial.

Segundo a especialista, a transição para o novo modelo tributário tende a pressionar ainda mais quem concentra renda em imóveis, aluguéis e ativos produtivos na pessoa física. “Em muitos casos, a carga tributária efetiva pode ultrapassar 30%, enquanto estruturas bem desenhadas permitem reduções relevantes, sempre dentro da legalidade”, explica. A reorganização, porém, vai além do aspecto fiscal. “Não se trata apenas de pagar menos imposto, mas de organizar relações familiares, proteger o patrimônio e garantir continuidade aos negócios.”

Da advocacia tradicional à abordagem sistêmica no Direito

A leitura ampliada do patrimônio como um sistema — jurídico, econômico e familiar — é resultado de uma trajetória profissional pouco convencional. Formada em Direito, com passagem acadêmica pela Universidade de Coimbra, Carolina iniciou a carreira na advocacia tradicional. Ainda no início da profissão, passou a aplicar conceitos das constelações familiares em atendimentos jurídicos, especialmente em conflitos de família.

A prática, que mais tarde ficaria conhecida como Direito Sistêmico, levou a índices elevados de acordos em processos de divórcio, guarda e sucessão. “Percebi que muitas disputas não eram apenas jurídicas, mas refletiam desequilíbrios familiares profundos. Quando esses pontos eram tratados, o conflito jurídico se resolvia com mais rapidez”, afirma.

O método ganhou projeção nacional durante a pandemia, impulsionado por cursos, eventos e palestras que atraíram advogados de diferentes regiões do país. Carolina fundou uma comissão temática sobre Direito Sistêmico na OAB e estruturou uma operação educacional que combinava cursos presenciais e online.

Com o tempo, a advogada decidiu migrar da atuação contenciosa para uma frente mais estratégica e preventiva. A mudança coincidiu com a criação da Árvot Planejamento Patrimonial, focada exclusivamente em holdings familiares e empresariais, planejamento sucessório, governança e, mais recentemente, estruturas internacionais.

“A holding é uma ferramenta poderosa quando bem utilizada. Ela pode evitar inventários longos e custosos, reduzir a carga tributária, reduzir conflitos entre herdeiros e criar regras claras para a entrada de filhos e familiares nos negócios”, explica. Segundo Carolina, é comum que famílias economizem milhões de reais ao antecipar a sucessão e estruturar corretamente a transferência de cotas e ativos.

Além da redução de custos, a governança é um dos pilares do trabalho. “Muitas empresas familiares quebram não por falta de mercado, mas por conflitos internos. Definir critérios objetivos — como quem pode assumir a gestão ou como ocorre a saída de um sócio — é fundamental para preservar o negócio no longo prazo.”

Novo ciclo de demanda

A expectativa é de que a Reforma Tributária amplie ainda mais a procura por esse tipo de solução. O aumento da carga tributária na pessoa física com a introdução de impostos como IBS e CBS, somados a taxação de 10% sobre lucros e dividendos distribuídos à pessoa física em montante superior a R$ 50.000,00 por mês e o avanço dos mecanismos de fiscalização sobre rendimentos imobiliários devem acelerar a formalização patrimonial por meio de Holding, a qual traz redução significativa dos tributos e permite a distribuição de lucros de forma isenta, ou seja, sem a taxação de 10%. “O sistema está empurrando as pessoas para a organização. Quem se antecipa ganha eficiência e tranquilidade”, diz a especialista.

Para ela, o momento exige uma atuação técnica, mas também sensível às dinâmicas humanas envolvidas. “Patrimônio não é só número. Ele carrega histórias, relações e expectativas. Quando isso é ignorado, o risco jurídico aumenta. Quando é tratado com método, o patrimônio se fortalece.”