A preocupação com o futuro financeiro das novas gerações têm ganhado força entre famílias brasileiras de alto patrimônio. Mais do que preservar riqueza, elas buscam formar herdeiros conscientes e preparados para lidar com os desafios do mundo financeiro.
Nesse contexto, os Multi Family Offices (MFOs) têm ampliado sua atuação com iniciativas voltadas para o planejamento intergeracional e a formação financeira desde a infância.
Um exemplo é o programa Hike Kids, desenvolvido pela Hike Capital, que oferece estrutura profissional para famílias iniciarem o planejamento patrimonial dos filhos desde cedo.
O processo começa com uma reunião para definir metas e expectativas, seguida da criação de um portfólio personalizado com objetivos como educação universitária, intercâmbio, aquisição de imóvel ou formação de reserva financeira. Os pais mantêm o controle da conta até que o filho complete 18 anos, quando ocorre a transição de titularidade, com flexibilidade para ajustes, caso necessário.
Segundo Jonas Carvalho, CEO da Hike Capital, a carteira do Hike KIDs é estruturada com foco no longo prazo. Na parte de renda fixa, prioriza FIC FIDCs e debêntures incentivadas, privilegiando prazos de resgate mais longos.
O CEO explica que essa característica, somada à ausência de necessidade imediata de liquidez, tende a ampliar o potencial de retorno da carteira ao longo do tempo. Já em ações, busca-se empresas resilientes e sólidas, capazes de atravessar diferentes ciclos econômicos e crises, mantendo relevância e capacidade de geração de valor.
“O portfólio é focado em empresas da bolsa americana por se tratar de um mercado resiliente e com grandes empresas, assim como a questão regulatória e a fiscalização são mais firmes quando comparado ao Brasil. Os ativos por sua vez são voltados especialmente para companhias de setores não cíclicos, como bancos, seguradoras, energia, transporte e negócios que apresentam histórico consistente de pagamento de dividendos, com perspectivas de valorização sustentada no longo prazo”, explica.
A estratégia é baseada em aportes regulares e juros compostos, com foco na autonomia financeira ao atingir a maioridade. “O Hike Kids é uma ferramenta que permite às famílias iniciarem o processo de educação financeira com os filhos de forma estruturada, conectando decisões de hoje com os desafios que eles enfrentarão no futuro”, afirma Carvalho.
Essa mudança de mentalidade reflete um fenômeno que vai além das finanças: trata-se de uma transformação cultural. As famílias estão cada vez mais preocupadas em transmitir valores, conhecimento e responsabilidade junto com o patrimônio e os MFOs têm se posicionado como parceiros estratégicos nesse processo.
Crescimento acelerado
O mercado de gestão patrimonial no Brasil tem evoluído rapidamente. Segundo levantamento da plataforma fnmk divulgado em março de 2025, existem atualmente 546 empresas atuantes no segmento de wealth management.
Os MFOs representam 44% desse total (240 empresas), superando os Single Family Offices (29%) e os Wealth Managers tradicionais (21%). Em 2023, eram 146 MFOs; em 2020, apenas 80 — um crescimento expressivo em poucos anos.
A mudança regulatória sobre fundos exclusivos, aprovada em 2023, também impulsionou essa expansão. Com estruturas mais flexíveis e menor exposição fiscal, os MFOs passaram a ser vistos como alternativas para reorganização patrimonial, planejamento sucessório e acesso a ativos não correlacionados com o mercado tradicional.
A concentração geográfica ainda é alta: 65% das empresas estão sediadas em São Paulo. No entanto, há crescimento em outras capitais como Curitiba e Belo Horizonte, que já somam 10% do total. Escritórios internacionais em Miami, Lisboa e Dubai também passaram a integrar o mapa de atuação das gestoras brasileiras.
Apesar de apenas 35,9% das empresas terem obrigação regulatória de exposição pública, os MFOs se destacam por práticas de governança e compliance que atendem às exigências de famílias com patrimônio elevado.
“O Multi Family Office é uma resposta à complexidade crescente do mercado financeiro e à necessidade de decisões patrimoniais orientadas por propósito”, diz Carvalho. “A estrutura permite que famílias tenham acesso a oportunidades globais de investimento, com governança clara e sem conflitos de interesse.”
Além da gestão de ativos, os MFOs passaram a incorporar temas como sucessão, governança familiar e educação financeira. A remuneração baseada exclusivamente em taxas fixas elimina comissões sobre produtos financeiros, o que reduz potenciais conflitos e permite que o escritório cresça junto com o patrimônio que administra.
O relatório Rethink Family Wealth, publicado pelo banco suíço Lombard Odier, reforça essa tendência global. Segundo o estudo, há uma transição acelerada de empresas familiares para escritórios de investimento, impulsionada por herdeiros que optam por vender ativos operacionais e redirecionar capital para estratégias de longo prazo.
Os family offices estão adotando modelos de alocação semelhantes aos de fundos endowment, com maior exposição a ativos privados e posições elevadas de liquidez. Há também um movimento crescente de formalização da governança, com famílias estruturando constituições, conselhos e estratégias de sucessão para lidar com a complexidade das relações intergeracionais.
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