Escândalos expõem falhas nos fundos. Veja como blindar seus investimentos

Finanças

O recente escândalo envolvendo um banco que operava com cotas de fundos voltados ao segmento private e lastreados em ações de duas empresas de energia renovável, em São Paulo, acendeu um alerta para investidores de todo o país.

As empresas entraram em recuperação judicial, despencando em valor de mercado. O que chamou a atenção foi o perfil dos sócios e fundadores das companhias, que já tinham sido investigados por desvios, lavagem de dinheiro e envolvimento com doleiros, o que foi omitido pelo banco aos investidores.

O caso expõe as brechas ainda existentes no mercado de fundos, especialmente os estruturados, e ganhou repercussão após clientes relatarem prejuízos milionários e ausência de transparência nas informações repassadas pelos gestores. Para o Instituto Empresa, focado na defesa dos minoritários, o episódio mostra a importância de o investidor adotar critérios rigorosos ao selecionar um fundo de investimento, especialmente em um cenário de maior sofisticação e complexidade dos produtos disponíveis no mercado.

“O fundo pode ter uma fachada atrativa, com promessas de rentabilidade acima da média e lastro em ativos reais, como imóveis ou precatórios. Mas é essencial verificar a reputação dos gestores, a regularidade junto à CVM, a estrutura jurídica e o histórico da operação”, afirma Eduardo Silva, presidente do Instituto Empresa.

Ele observa que a situação deixa clara a existência de um problema estrutural mais profundo no mercado de fundos: a falta de transparência nas operações e os conflitos de interesse que comprometem a tomada de decisão do investidor comum. Em muitos casos, produtos sofisticados são oferecidos com foco em metas de captação e não necessariamente nos interesses do cliente. “É comum que bancos e plataformas priorizem fundos que pagam maiores comissões de distribuição, independentemente da adequação do produto ao perfil do investidor”, alerta, ao complementar que isso cria um desalinhamento de interesses que pode ser muito prejudicial.

Além disso, os ativos que supostamente lastreiam o fundo nem sequer contam com a solidez prometida. Por esse motivo, é preciso ler o regulamento com atenção, verificar se há auditoria externa, relatórios periódicos e, sobretudo, entender o fluxo do dinheiro dentro da estrutura.

O episódio também reforça o papel das autoridades reguladoras na fiscalização e prevenção de fraudes no setor, e acende um sinal para a necessidade de educação financeira mais robusta entre os investidores.

Apesar de a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a Anbima estabelecerem normas para a divulgação de informações, a fiscalização costuma ser reativa, ou seja, age quando o problema já está em curso. Por isso, a diligência prévia por parte do investidor torna-se indispensável.

“O investidor precisa entender que, ao aplicar em fundos, ele está terceirizando decisões a um gestor. É crucial saber quem são essas pessoas, qual o histórico delas, como elas ganham dinheiro e quais incentivos podem estar enviesando suas decisões”, reforça Silva. 

O caso recente na Faria Lima não é um ponto fora da curva, mas um sintoma de um modelo de distribuição e estruturação de fundos que ainda permite excessos e abusos. “Se o mercado quiser preservar sua credibilidade no longo prazo, precisará adotar padrões mais elevados de governança, ética e transparência. E o investidor, por sua vez, precisa deixar de ser apenas cliente e se tornar fiscal do seu próprio dinheiro”, conclui.

Leia mais:

Resposta aos EUA sobre o Pix, o pagamento instantâneo do Brasil.

Famílias investem na educação financeira dos filhos