Inadimplência em alta impulsiona fundos de crédito para financiar empresas e recuperar dívidas

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A expansão dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) no Brasil ocorre em um momento de maior seletividade na concessão de crédito. O país alcançou 9,2 milhões de CNPJs inadimplentes em julho de 2026, com R$ 238,6 bilhões em dívidas negativadas e 67,2 milhões de débitos em aberto. Em comparação com março, quando o estoque somava R$ 212,8 bilhões, houve um aumento de R$ 25,8 bilhões, equivalente a 12,1%, em apenas 4 meses. Enquanto a inadimplência avança, o mercado de capitais amplia sua participação no financiamento empresarial. Dados mostram que os FIDCs acumularam R$ 56 bilhões em captação líquida entre janeiro e setembro, ficando atrás apenas dos fundos de renda fixa. Em agosto, as emissões desses veículos alcançaram R$ 14,5 bilhões, crescimento de 146,3% em relação ao mesmo mês de 2025. O movimento evidencia a expansão das alternativas ao crédito bancário tradicional, incluindo estruturas voltadas à antecipação de recebíveis, à aquisição de créditos vencidos e à reestruturação financeira de empresas. Embora os FIDCs tradicionais operem principalmente com recebíveis originados de vendas e serviços, fundos especializados em NPL (Non-Performing Loans, ou créditos inadimplidos), ativos distressed e operações de financiamento a empresas em recuperação judicial ampliam as possibilidades de atuação do crédito privado.

Uma das respostas ao aumento da inadimplência está na criação de estruturas capazes de negociar, reorganizar e recuperar dívidas que já não seguem o fluxo original de pagamento. Em operações de NPL e distressed, fundos especializados podem adquirir créditos vencidos com deságio, avaliar garantias, negociar novas condições com os devedores e buscar a recuperação dos valores por meio de estratégias jurídicas e financeiras. Já o DIP financing (Debtor-in-Possession Financing) permite conceder novos recursos a companhias em recuperação judicial, com proteções e prioridade de pagamento previstas na legislação, oferecendo condições para a continuidade de atividades economicamente viáveis. Essas estratégias diferem dos FIDCs multicedente e multissacado tradicionais, que financiam recebíveis de diferentes empresas e sacados, mas integram o movimento de diversificação do crédito estruturado. O IOX Special, fundo do Grupo IOX dedicado à aquisição de créditos estressados, exemplifica essa atuação. Segundo dados internos da companhia, em abril de 2026, os créditos classificados como vencidos representavam 0,4% do patrimônio líquido, enquanto a provisão para perdas, conhecida como PDD, correspondia a 0,3%. Os indicadores refletem a carteira segundo os critérios de classificação do fundo e devem ser analisados considerando que parte dos ativos já é adquirida em situação de inadimplência e com desconto no preço de compra. Para Richard Ionescu, CEO do Grupo IOX, a recuperação exige uma combinação de precificação adequada e gestão especializada. “O ponto central não é evitar todo crédito vencido, mas saber precificar, estruturar garantias e recuperar. No crédito estressado, o ativo já entra com penalidade e desconto. A tese só funciona quando existem disciplina jurídica, leitura de risco e capacidade de execução”, afirma.

A expansão dos fundos especializados também pode beneficiar os bancos, ao oferecer um canal adicional para a venda de carteiras inadimplidas e a reorganização de seus balanços. Quando uma instituição financeira mantém créditos com baixa perspectiva de recuperação, precisa reconhecer o risco de perda e cumprir as exigências prudenciais aplicáveis, o que pode limitar sua capacidade de assumir novas exposições. Ao vender esses ativos para fundos especializados, o banco pode antecipar parte do valor recuperável, reduzir os custos associados à cobrança e, dependendo da estrutura da operação e do tratamento regulatório, liberar capacidade para novas concessões. Para os investidores, a oportunidade está na diferença entre o preço de aquisição e o valor efetivamente recuperado, descontados os custos e o tempo necessário para receber. A estratégia exige análise da capacidade financeira do devedor, das garantias disponíveis e da viabilidade de acordos ou medidas judiciais.

A dimensão desse mercado aparece nos dados de recuperação judicial. Segundo levantamento, 977 processos foram registrados em 2025, envolvendo 2.466 empresas, maior número de CNPJs da série histórica. O avanço dessas situações amplia a demanda por especialistas em insolvência, reestruturação e recuperação de garantias, além de criar oportunidades para operações que forneçam liquidez a credores e financiamento a empresas com possibilidades de reorganização. A venda de créditos problemáticos, porém, não elimina a inadimplência original: transfere a exposição a investidores preparados para administrá-la, que passam a assumir os riscos e os custos da recuperação. “O crédito estressado não deve ser visto apenas como sintoma de deterioração, mas como parte de um mercado mais completo. Em um ambiente de bancos mais restritivos, fundos com capital, governança e capacidade de recuperação ajudam a dar liquidez para credores, reorganizar passivos de empresas e liberar espaço para que o crédito volte a circular,” afirma Ionescu.