Mercado já trabalha com revisão do benefício fiscal; mudança pode reduzir vantagem dos papéis, redirecionar recursos para títulos públicos e elevar custo de captação das instituições financeiras
Fim da isenção de Imposto de Renda de LCIs e LCAs voltou ao radar do mercado e pode alterar uma das principais vantagens desses investimentos para pessoas físicas. Hoje, os papéis continuam isentos, mas instituições financeiras já trabalham com a possibilidade de revisão do benefício, depois de uma primeira tentativa do governo de avançar sobre sua tributação. A diferença para o investidor é relevante: com o CDI atualmente em 13,65% ao ano, a vantagem tributária pode ser demonstrada em números. Em uma simulação com CDI constante de 13,65% ao ano, uma LCI ou LCA remunerada a 90% do indicador entregaria aproximadamente 12,21% líquidos em um ano, considerando a capitalização diária em 252 dias úteis.
Para alcançar o mesmo resultado, uma aplicação tributada precisaria render cerca de 14,79% brutos no período, considerando Imposto de Renda de 17,5% e ausência de custos. Essa diferença ajuda a explicar por que a possibilidade de mudança pode antecipar a busca por LCI e LCA enquanto a regra atual ainda estiver em vigor. Por trás da discussão está uma disputa pelo dinheiro aplicado em renda fixa. LCIs e LCAs somam mais de R$ 1 trilhão em estoque e competem com títulos públicos pela poupança dos investidores. A avaliação é que a isenção torna esses papéis mais competitivos e pode aumentar o prêmio exigido para financiar a dívida pública.
A estimativa é de R$ 31,7 bilhões por ano em renúncia fiscal ligada a LCI, LCA, CRI e CRA, enquanto o custo total associado ao benefício já foi calculado em cerca de R$ 60 bilhões anuais, dos quais aproximadamente R$ 40 bilhões estariam relacionados a juros adicionais pagos pelo Tesouro. Ao reduzir ou eliminar a vantagem tributária dos títulos bancários, o governo tenta tornar seus próprios papéis mais competitivos e diminuir parte do custo de captação. O impacto, porém, seria gradual. A Dívida Pública Federal alcançou R$ 9,289 trilhões em julho de 2026, e cerca de 45,2% do estoque está concentrado em títulos prefixados e indexados à inflação, aproximadamente R$ 4,2 trilhões.
É nessa parcela que uma eventual redução das taxas exigidas nas novas emissões poderia produzir efeito mais direto. Em uma simulação de sensibilidade, cada 1 ponto percentual a menos no custo de emissão dessa fatia poderia representar cerca de R$ 42 bilhões por ano de economia quando o efeito estivesse integralmente incorporado às rolagens. “Se bancos e investidores passarem a precificar a possibilidade de perda da isenção, as taxas das novas emissões de LCI e LCA podem ser ajustadas antecipadamente. Para as instituições, o desafio será encontrar uma remuneração que preserve a demanda sem encarecer excessivamente a captação. Para o investidor, isso significa que a comparação entre os papéis pode mudar antes mesmo de uma nova regra chegar à carteira. Esse movimento de reprecificação é tão importante quanto a própria discussão do imposto”, explica Fábio Murad, consultor da Wiser Asset.
No primeiro ano, porém, a economia seria bem menor, próxima de R$ 10 bilhões, porque os títulos já emitidos preservam suas condições até o vencimento. A retirada da isenção também pode deslocar parte dessa conta para investidores e setores que dependem desses instrumentos para captar recursos. LCIs e LCAs ajudam a financiar os mercados imobiliário e agropecuário, e uma eventual tributação pode obrigar as instituições financeiras a oferecer remuneração maior para manter a atratividade dos papéis, elevando o custo de captação e abrindo espaço para repasses ao crédito. Executivos do setor imobiliário já estimaram que uma tributação de 5% poderia acrescentar cerca de 0,8 ponto percentual ao custo do crédito em determinado cenário. A discussão, portanto, coloca duas pressões em lados opostos: de um lado, o governo busca aliviar o custo da dívida pública; de outro, o investidor pode perder uma vantagem tributária que hoje melhora o retorno líquido de LCI e LCA, enquanto o crédito para habitação e agronegócio pode ficar mais caro.