Geração inquieta: Brasil já tem mais de 5 milhões de jovens empreendedores

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O empreendedorismo está ganhando peso entre os jovens brasileiros e começa a revelar uma mudança mais profunda na forma como essa geração enxerga trabalho e carreira. O Brasil encerrou o segundo trimestre de 2026 com 30,4 milhões de donos de negócios, dos quais mais de 5 milhões têm até 29 anos, o equivalente a 16% do total. Em 2012, esse grupo reunia cerca de 4 milhões de pessoas. A mudança não aparece apenas na quantidade. A parcela de jovens empreendedores com ensino superior incompleto ou nível de escolaridade maior passou de 14,1% em 2012 para 27,8% em 2025, praticamente dobrando em pouco mais de uma década. Entre brasileiros de 18 a 34 anos, aproximadamente 44% apontam ter o próprio negócio entre seus principais sonhos. Ao mesmo tempo, o mercado que essa geração encontra está se tornando mais exigente: 39% das competências utilizadas pelos trabalhadores deverão mudar até 2030, enquanto 63% dos empregadores já apontam a falta de habilidades adequadas como a principal barreira à transformação de seus negócios.


É nesse cenário que São Paulo recebe neste sábado, 19 de setembro, o Inquietos 2026, encontro voltado a jovens de 17 a 35 anos que já empreendem ou pretendem construir um negócio. Realizado no Community SP, na Vila Leopoldina, o evento terá programação das 8h às 20h, com nove painéis e palestras que passam por temas como liderança, tecnologia, creator economy, vendas, comunicação, novas fontes de receita e sucessão empresarial. Mais do que o crescimento do interesse pelo empreendedorismo, a discussão que cerca essa nova geração passa pela distância entre desejar abrir uma empresa e desenvolver repertório suficiente para mantê-la competitiva. “Durante muito tempo, empreender foi associado principalmente à coragem de começar. Hoje, começar continua sendo importante, mas está longe de ser suficiente. O jovem precisa entender gestão, vendas, pessoas, tecnologia e capital quase simultaneamente. O mercado ficou mais rápido e a formação de quem toma decisões também precisa acompanhar essa velocidade”, afirma Theo Braga, sócio da PIB The New College e idealizador do Inquietos.


Os próprios números mostram onde está parte desse desafio. Entre os jovens donos de negócios brasileiros, 93% trabalham por conta própria e apenas 7% já são empregadores. O setor de serviços concentra 57% desses empreendedores, seguido por comércio, com 17%, construção, com 11%, agropecuária, com 10%, e indústria, com 5%. Os dados ajudam a separar duas etapas que muitas vezes aparecem juntas no debate público: começar a empreender e construir uma organização capaz de empregar pessoas, desenvolver processos, ampliar receita e sobreviver à mudança de mercado. É justamente nessa passagem que assuntos como liderança, geração de receita, presença digital e sucessão, presentes na programação do Inquietos, ganham dimensão menos motivacional e mais empresarial. “Existe uma diferença grande entre criar o próprio trabalho e construir uma empresa. O segundo movimento exige aprender a delegar, formar pessoas, olhar para números, criar processos e tomar decisões que nem sempre dão retorno imediato. Quanto mais cedo o empreendedor entende essa diferença, maior é a capacidade de construir um negócio que não dependa exclusivamente dele para continuar funcionando”, diz Braga.


A expansão do empreendedorismo jovem ocorre, portanto, em um momento no qual formação e capacidade de adaptação passam a valer tanto quanto a disposição para abrir um negócio. No fim de 2025, 15% dos jovens donos de empresas ainda frequentavam alguma instituição de ensino, uma proporção 4 vezes maior que a observada entre os empreendedores adultos. No mercado global, competências tecnológicas como inteligência artificial e análise de dados estão entre as que mais devem ganhar importância até 2030, mas o pensamento analítico, criatividade, resiliência, flexibilidade e liderança estão entre as habilidades consideradas decisivas pelas empresas. É nesse cruzamento entre educação, experiência prática e transformação do trabalho que encontros como o Inquietos procuram se posicionar. A edição deste sábado reunirá empresários, investidores, criadores e sucessores de empresas para discutir essas mudanças ao longo de um dia em São Paulo, em um momento em que milhões de jovens brasileiros já deixaram de enxergar o empreendedorismo apenas como uma possibilidade futura e passaram a tratá-lo como escolha concreta de carreira.