Como a regulamentação está impulsionando uma nova geração de ecossistemas de pagamentos 

Finanças

Por Giselle Colacioppo, Managing Partner da águilahub 

De obrigação a plataforma estratégica

Durante muitos anos, a regulamentação foi encarada pelas empresas como uma obrigação necessária para garantir conformidade, reduzir riscos e atender às exigências dos órgãos reguladores. Essa visão fez sentido por muito tempo, mas acredito que, hoje, ela já não represente a realidade do mercado. 

Nos dias atuais, a regulamentação exerce um papel muito mais estratégico. Ela cria as bases para que empresas, instituições financeiras e provedores de tecnologia desenvolvam novos modelos de negócio, construam parcerias e ampliem a geração de valor dentro de um ecossistema cada vez mais conectado. 

Essa transformação pode ser observada em iniciativas como Pix, Open Finance e Drex. Todas elas estabeleceram uma infraestrutura comum baseada em interoperabilidade, compartilhamento seguro de dados e confiança entre os participantes do sistema financeiro. 

O resultado vai além da modernização dos meios de pagamento. Surge um ambiente que permite integrar serviços, conectar diferentes organizações e acelerar a criação de soluções inovadoras. A discussão, portanto, deixou de ser apenas tecnológica e passou a ser estratégica. 

Os números mostram a dimensão desse movimento: no acumulado de janeiro a maio de 2026, o Pix processou mais de 36 bilhões de transações, movimentando cerca de R$ 16 trilhões, segundo o Banco Central. No mesmo período, o Open Finance brasileiro ultrapassou 70 milhões de consentimentos ativos, consolidando-se como uma das iniciativas mais avançadas do mundo em compartilhamento de dados financeiros. 

Esses indicadores demonstram que a infraestrutura necessária para a inovação já está disponível. O desafio agora é compreender como utilizá-la para criar diferenciação competitiva. 

Na minha experiência, a principal mudança não está no crescimento do volume de transações, mas na forma como as empresas passaram a enxergar os pagamentos. Durante muitos anos, eles foram tratados como uma atividade operacional, responsável apenas por processar transações com eficiência. 

Hoje, representam um ponto de conexão entre clientes, parceiros, dados e serviços. Quando inseridos em uma estratégia de negócios, tornam-se um instrumento para ampliar receitas, fortalecer o relacionamento com clientes e criar novas oportunidades de crescimento. 

Esse movimento, por sua vez, explica a rápida evolução do Embedded Finance. Empresas de diferentes segmentos passaram a incorporar serviços financeiros diretamente às suas jornadas digitais: varejistas oferecem crédito no momento da compra, marketplaces disponibilizam soluções financeiras para seus parceiros, empresas de saúde integram pagamentos e benefícios, e plataformas digitais desenvolvem experiências cada vez mais personalizadas utilizando dados financeiros. 

Segundo estimativas da McKinsey e da Bain & Company, esse mercado deverá movimentar entre US$ 500 bilhões e US$ 700 bilhões até 2030, refletindo uma transformação que ultrapassa o universo dos pagamentos e redefine a forma como diferentes setores se relacionam com seus clientes. 

Um cenário que evidencia que inovação e regulamentação caminham lado a lado. Quanto maior a integração entre empresas e plataformas, maior a necessidade de padrões comuns capazes de garantir segurança, interoperabilidade, proteção de dados e governança. Sem confiança não existe colaboração. E sem colaboração não existem ecossistemas capazes de sustentar o crescimento de longo prazo. 

Segundo a Juniper Research, as perdas globais relacionadas a fraudes em pagamentos digitais devem ultrapassar US$ 40 bilhões até 2027. Esse dado reforça que segurança da informação, prevenção a fraudes e governança deixaram de ser temas exclusivos das áreas de compliance — hoje, fazem parte da estratégia de crescimento das organizações. 

Ao conversar com executivos, percebemos que muitas empresas ainda concentram seus esforços em decidir quais tecnologias implementar. Acredito que essa já não seja a principal discussão. O verdadeiro desafio está em entender como essa nova infraestrutura pode acelerar o crescimento do negócio. 

Organizações que tratam Pix, Open Finance ou Drex apenas como projetos regulatórios tendem a capturar apenas os custos da transformação. As empresas que enxergam essas iniciativas como plataformas de inovação conseguem desenvolver novos produtos, fortalecer parcerias, ampliar canais de distribuição e criar novas fontes de receita. 

Esse também é o momento de revisar algumas questões estratégicas: 

  • A estratégia de pagamentos ainda está restrita à eficiência operacional ou já faz parte da agenda de crescimento da empresa? 
  • A arquitetura tecnológica permite integrar rapidamente novos parceiros? 
  • A governança de dados está preparada para transformar informações em vantagem competitiva? 
  • A regulamentação está sendo utilizada apenas para atender às exigências do mercado ou também para impulsionar novos modelos de negócio? 

As respostas para essas perguntas provavelmente terão mais impacto sobre o futuro das organizações do que a escolha da próxima tecnologia. 

Os avanços do Drex, da tokenização de ativos e da integração crescente entre pagamentos, crédito, investimentos e seguros mostram que as fronteiras entre os serviços financeiros serão cada vez menos perceptíveis para o cliente final. As organizações que compreenderem essa transformação sairão na frente porque serão capazes de conectar parceiros, dados, tecnologia e regulamentação em uma estratégia única, criando ecossistemas preparados para crescer de forma segura, escalável e sustentável. 

Essa é a principal transformação em curso no mercado financeiro. A regulamentação deixou de definir apenas como as empresas devem operar e passou a criar as condições para que novos modelos de negócio possam surgir. Quem compreender esse movimento terá melhores condições para liderar a próxima fase da inovação financeira.