Inflação persistente acumula alta de 4,72% em 12 meses

Economia

Grupo de alimentos e bebidas foi responsável pela maior variação no IPCA de maio

O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de maio foi de 0,58% e desacelerou em relação ao resultado de abril (0,67%), mas acumula alta de 3,20% nos primeiros cinco meses de 2026, chegando a 4,72% nos últimos 12 meses.

Em maio, a maior variação (1,33%) e o maior impacto (0,29 p.p.) vieram do grupo Alimentação e bebidas, seguido de Habitação com 1,22% de variação e 0,18 p.p. de impacto e de Saúde e cuidados pessoais (0,90% e 0,12 p.p.). Os demais grupos apresentaram variações entre o -0,46% observado em Transportes, único grupo com variação negativa, e o 0,62% de Vestuário.

Os resultados da inflação oficial do país foram divulgados, na manhã de hoje (12), pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Confira abaixo os comentários de especialistas a respeito do resultado do IPCA.

Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD

O IPCA de maio veio acima das expectativas, com alta de 0,58%, levando a inflação acumulada em 12 meses para 4,72%, acima do teto da meta perseguida pelo Banco Central. O grande vilão continua sendo a alimentação, que avançou 1,33% no mês, pressionada por problemas de oferta e pelo aumento dos custos logísticos.

Por outro lado, houve sinais positivos. A gasolina caiu 1,46%, os combustíveis como um todo ajudaram a conter uma inflação ainda maior e a média dos núcleos desacelerou de 0,50% para 0,45%, indicando uma perda gradual de fôlego das pressões mais persistentes de preços.

O mercado recebeu os dados com relativa tranquilidade porque, apesar do índice cheio ter surpreendido para cima, os componentes mais observados pelo Banco Central vieram melhores. Além disso, a queda do petróleo no mercado internacional e a perspectiva de um acordo entre Estados Unidos e Irã ajudam a reduzir riscos inflacionários à frente.
Para a próxima reunião do Copom, a expectativa predominante é de manutenção da Selic. Ainda assim, após a divulgação do IPCA e a melhora dos núcleos de inflação, o mercado voltou a precificar a possibilidade de início de um ciclo de cortes de juros nos próximos meses. A leitura é que, embora a inflação cheia siga acima da meta, os indicadores subjacentes mostram uma desaceleração gradual, o que pode abrir espaço para uma flexibilização monetária adiante, desde que o cenário fiscal não piore e as expectativas de inflação continuem cedendo.

Rafael Rondinelli – economista da MAG Investimentos

O IPCA de maio registrou alta de 0,58%, um pouco acima da expectativa do mercado e desacelerando frente à leitura de abril (0,67%). No acumulado em 12 meses, a inflação subiu para 4,72%, acima do observado no mês anterior (4,39%) e do teto da meta de inflação 4,50%).

A divulgação veio majoritariamente em linha com a expectativa do mercado, com alívio em algumas leituras a partir da análise qualitativa. Ainda assim, a leitura aponta para um quadro de inflação ainda pressionada, especialmente no que tange serviços, que segue rodando próximos de 6,0% na comparação anual. Em outras palavras, apesar da desaceleração em alguns itens, a dinâmica dos componentes mais sensíveis ao ciclo econômico ainda sugere persistência de pressões inflacionárias.

Na abertura, o resultado foi novamente puxado por Alimentação e Bebidas, que avançou 1,33% no mês e respondeu pela maior parte da pressão sobre o índice. Habitação também teve peso importante, com alta de 1,22%, refletindo sobretudo a elevação da energia elétrica residencial. Em contrapartida, Transportes registrou deflação de 0,46%, com destaque para a contribuição negativa da gasolina, que ajudou a aliviar parcialmente o IPCA no mês. Saúde e Cuidados Pessoais também permaneceu em terreno positivo, com aumento de 0,90%, reforçando que a inflação seguiu pressionada em itens sensíveis ao consumo das famílias.

Entre os componentes mais relevantes para a política monetária, a leitura de serviços segue particularmente importante. O grupo avançou 0,40% no mês, mantendo-se em patamar compatível com uma inflação de serviços ainda resiliente. Já os serviços subjacentes continuam sem sinal de descompressão robusta, o que reforça a avaliação de que o processo desinflacionário ainda é parcial e gradual. A média dos cinco núcleos recuou marginalmente para 0,45%, enquanto o índice de difusão ficou em 65,0%, sugerindo apenas melhora limitada na dispersão inflacionária.

Em síntese, a inflação de maio trouxe algum alívio na análise qualitativa, apesar da leitura cheia acima do esperado. No entanto, trata-se de uma divulgação que não altera o quadro central de que a inflação segue pressionada, com destaque para a persistência em serviços e em seus componentes subjacentes. O dado reforça a necessidade de cautela na avaliação dos próximos passos da política monetária, sobretudo diante de expectativas ainda pouco ancoradas e da ausência de melhora mais convincente na dinâmica inflacionária.

Mariana Rodrigues, economista da SulAmérica Investimentos

O IPCA referente ao mês de maio registrou uma variação de 0,58%, resultado em linha com a nossa projeção e acima da mediana de mercado. Em relação à média dos núcleos de inflação, embora o indicador tenha convergido com as estimativas, os dados evidenciaram uma reaceleração no segmento de bens industriais, com particular destaque para os itens de higiene pessoal. Esse movimento sugere um provável efeito indireto das cotações do petróleo sobre a precificação final destes produtos.

Em contrapartida, observou-se uma dinâmica menos pressionada no grupo de serviços subjacentes e de serviços em geral. Dessa forma, embora o resultado não motive revisões em nossa projeção, ele segue evidenciando uma dinâmica qualitativa desfavorável, que implicará um panorama complexo para o Banco Central diante de um cenário com inflação acima da meta e expectativas desancoradas.

Gabriel Pestana, economista-sênior da Genial Investimentos

O IPCA de maio avançou 0,58% m/m, acima da nossa projeção de 0,48% e da expectativa de mercado de 0,55%. Com isso, a inflação acumulada em doze meses chegou a 4,72%. Apesar da surpresa altista no índice cheio, a leitura qualitativa foi melhor do que o número sugere. As principais pressões vieram de condições desfavoráveis de oferta, itens voláteis e uma devolução menor dos combustíveis, refletindo uma marca inflacionária associada ao conflito no Oriente Médio. Por outro lado, os componentes mais ligados à demanda e ao mercado de trabalho, que tendem a ser mais persistentes, vieram abaixo do esperado.

Em alimentação no domicílio, a alta de 1,65% m/m materializou o risco altista que já havíamos pontuado no nosso preview. A surpresa ficou concentrada em poucos itens, especialmente tubérculos, arroz e leite. Esse padrão traz algum alívio para a avaliação qualitativa, embora o peso desses produtos tenha pressionado bastante o índice cheio do grupo. Carnes e frango, itens mais sensíveis à demanda, vieram dentro do esperado. A deterioração no grupo parece ser de intensidade menor do que a sugerida pelo número agregado de alimentação. Ainda assim, arroz e leite têm alguma inércia e devem levar a revisões altistas nas projeções dos próximos meses.

Nos demais grupos, o destaque positivo ficou com serviços, que avançaram 0,40% m/m, abaixo da nossa expectativa de 0,48%, com arrefecimento mais forte em itens subjacentes e intensivos em trabalho. Esse resultado reforça uma leitura mais benigna para a inflação de demanda no curto prazo. Bens industriais subiram 0,30% m/m, acima do projetado, mas a surpresa ficou concentrada em perfume, item bastante volátil, enquanto itens mais inerciais, como automóveis e vestuário, vieram mais favoráveis e devem contribuir para revisões baixistas. Já os administrados subiram 0,44% m/m, acima da nossa projeção de 0,23%, pressionados por gasolina e energia elétrica.

Mesmo com o qualitativo melhor do que o índice cheio sugere, a inflação e a média dos núcleos seguem acima da meta em doze meses, reforçando a necessidade de uma política monetária contracionista. A nossa expectativa é de que o Banco Central realize mais um corte de -25 bps na reunião de junho e interrompa o ciclo de corte, encerrando 2026 com a taxa Selic em 14,25%. Quanto ao IPCA, tendo um qualitativo bom ou não, o número de maio é elevado e contrata mais um trimestre de inflação elevada, reforçando a necessidade de uma política monetária contracionista.