Infraestrutura tecnológica é a base da nova era do crédito

Uncategorized

*Lívia Esteves Assan

Nos últimos dez anos, o sistema financeiro brasileiro passou por uma transformação estrutural. A abertura de contas tornou-se digital, pagamentos passaram a ser instantâneos e o compartilhamento estruturado de dados ganhou escala.

Segundo o Banco Central do Brasil, o Pix registrou, no fim de 2025, recordes superiores a 300 milhões de transações em um único dia e já ultrapassa 170 milhões de usuários cadastrados entre pessoas físicas e jurídicas (Banco Central do Brasil, Estatísticas do Pix, 2025). O volume financeiro anual movimentado pelo sistema atingiu dezenas de trilhões de reais, consolidando-o como principal meio de pagamento do País.

Open Finance

O Open Finance seguiu trajetória semelhante. De acordo com dados do Banco Central, o ecossistema ultrapassou 100 milhões de consentimentos ativos de compartilhamento de dados e pagamentos e registra bilhões de chamadas semanais de APIs entre instituições financeiras participantes (Banco Central do Brasil, Open Finance Brasil, Relatórios 2025).

A digitalização também transformou a concessão de crédito. Segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2024/2025, mais de 80% das transações bancárias no Brasil já são realizadas por canais digitais, com predominância do mobile banking. Modalidades como cartão de crédito, empréstimo pessoal e financiamento são contratadas majoritariamente por meio digital, seja via aplicativo, internet banking ou canais remotos integrados (Febraban, Pesquisa de Tecnologia Bancária 2024/2025).

Esse cenário não surgiu de forma espontânea. De acordo com a mesma pesquisa, os bancos brasileiros investem anualmente mais de R$ 40 bilhões em tecnologia, com foco em infraestrutura, segurança cibernética, modernização de plataformas e integração de sistemas. O setor financeiro é, historicamente, um dos maiores investidores privados em tecnologia no País.

Crédito

Esse dado é central para compreender o crescimento recente do crédito. Segundo as Estatísticas Monetárias e de Crédito do Banco Central, o estoque de crédito no Brasil superou R$ 5 trilhões nos últimos anos, com expansão relevante da carteira a pessoas físicas e jurídicas (Banco Central do Brasil, Estatísticas de Crédito, 2025).

Esse crescimento não seria possível na escala observada se a infraestrutura tecnológica e a digitalização não tivessem avançado. A concessão digital em massa exige integração em tempo real, validação automática de dados, autenticação segura, interoperabilidade entre instituições e aplicação consistente de regras regulatórias. APIs, padronização técnica e arquitetura robusta são o que os ingredientes que tornam essa engrenagem operacionalmente viável.

É comum associar a expansão do crédito apenas à política monetária, competição bancária ou modelos de análise de risco. Esses fatores são relevantes, mas a eficiência operacional também é determinante. Quando a jornada de contratação é digital e a execução é integrada, o custo operacional diminui. Quando o risco operacional é reduzido, há mais previsibilidade. E previsibilidade é condição para expansão sustentável.

Infraestrutura

A experiência recente do sistema financeiro brasileiro demonstra que inovação não começa na interface do aplicativo. Começa na infraestrutura. O Pix só alcançou escala porque a arquitetura foi construída antes. O Open Finance só avançou porque houve padronização tecnológica e coordenação regulatória. O crescimento do crédito segue a mesma lógica.

A expansão do crédito nos últimos anos foi viabilizada por uma base tecnológica capaz de sustentar milhões de operações digitais diárias com segurança e rastreabilidade. Tecnologia, nesse contexto, não é acessório. É o que permite que o crédito exista em escala, opere com eficiência e cresça de forma sustentável.

*Lívia Esteves Assan é cofundadora e CEO da PO27