A varejista, Shein, pretende levantar até US$ 1,7 bilhão com a venda de 280 milhões de ações, avaliando a companhia em até US$ 27 bilhões. O valor representa uma queda de aproximadamente 72% em relação aos US$ 98,2 bilhões alcançados em uma rodada privada em 2022, uma perda de cerca de US$ 71 bilhões em valor de mercado antes mesmo da estreia na Bolsa. Ainda assim, a demanda dos investidores já foi suficiente para cobrir a oferta, enquanto investidores-âncora comprometeram cerca de US$ 383 milhões. O prospecto também prevê até US$ 3,5 bilhões em pagamentos e ações adicionais a determinados investidores anteriores, mecanismo relacionado à forte redução do valuation. A estreia está prevista para 1º de setembro e ocorre depois de tentativas frustradas de listagem em Nova York e Londres. O movimento acontece justamente durante a recuperação do mercado de capitais de Hong Kong, que registrou 87 novas listagens e HK$ 212 bilhões captados no 1º semestre de 2026, avanço de 94% em um ano, tornando-se o segundo maior mercado de IPOs do mundo no período.
O caso da Shein ajuda a mostrar que uma operação pré-IPO envolve mais do que a expectativa de uma futura abertura de capital. O preço de entrada, os fundamentos da companhia e o horizonte de liquidez também ganham peso nessa decisão, principalmente em períodos em que o mercado passa por ajustes de valuation. Nessas situações, avaliações construídas em rodadas privadas podem ser revistas quando a empresa se aproxima do mercado público e passa por uma nova etapa de precificação. Para Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest, esse movimento reforça a importância de olhar para o investimento de forma mais ampla. “O IPO é uma etapa importante, mas não é o fim e não deve ser analisado de forma isolada. Uma boa empresa também precisa estar acompanhada de um valuation coerente com seus fundamentos e com o cenário de mercado e propor um plano atrativo e coerente de crescimento e inovação. No caso da Shein, vemos como as condições podem mudar entre uma rodada privada e a chegada à Bolsa, exigindo ajustes naturais nas expectativas e na precificação, mas também pode ser visto como uma oportunidade de investir em um ativo com o preço certo”, afirma.
A diferença de mais de US$ 71 bilhões entre o pico privado da Shein e seu valuation na abertura também coloca em evidência uma mudança no próprio mercado de venture capital: depois dos valuations elevados observados no período de abundância de capital, empresas em estágio avançado precisam demonstrar com mais clareza crescimento sustentável, rentabilidade, governança e capacidade de chegar ao mercado público sem depender de múltiplos excessivamente otimistas. Nesse cenário, a seleção de pré-IPOs passa menos pela tentativa de antecipar “a próxima empresa que vai abrir capital” e mais pela relação entre preço de entrada, fundamentos, horizonte de liquidez e retorno potencial. “Pré-IPO não deve ser tratado como uma contagem regressiva para a Bolsa. O investidor precisa partir da hipótese de que o IPO pode demorar, acontecer em outro mercado ou até ocorrer com um valuation inferior ao da última rodada privada. A oportunidade está justamente em identificar empresas em que os fundamentos e o preço de entrada continuem fazendo sentido mesmo quando o cenário muda”, diz Patrus.